sexta-feira, abril 29, 2011

Mais sociedade para quem?

«O que é que é preferivel penalizar o consumo, que até tem na sua origem sobretudo produtos importados, ou penalizar as empresas tornando-as menos competitivas? (...) temos que fazer escolhas: ou poupo ou consumo, ou vou ao cinema ou compro as pipocas, não fico a comer pipocas e não vejo o filme» João Duque



Estas são as pessoas atrás de Pedro Passos Coelho. Não sabem das outras pessoas que não poupam, porque o que ganham não chega para pagar a comida. Não sabem das outras pessoas que já poupam, para ter o suficiente para garantir a sobrevivência familiar. Metáfora com cinema? E aqueles que já deixaram de ir ao cinema, porque precisam do dinheiro para bens essenciais. Desta vez foi João Duque, há uns meses foi Camilo Lourenço, a dizer que as pessoas têm de deixar de ir jantar fora todos os dias e ir só uma vez por semana... Falam do alto dos seus salários chorudos e da sua vida confortável de burguesia urbana. Completamente alheios e insensíveis à luta diária, de quem trabalhando ou recebendo a justa reforma, não ganha o suficiente para a sua sobrevivência.

É um insulto aos mais desprotegidos, é uma ameaça à coesão social, um ataque aos mais pobres e de uma desumanidade impressionante. Ninguém tenha dúvidas que os elementos deste grupo "Mais sociedade", estão a revelar o programa político do PSD e serão os ministros de Passos Coelho, caso vença as eleições. Perguntem-se se são estes os senhores que querem a dirigir o país? As escolhas deles não são de certeza as do cidadão comum, afectado pelos baixos salários, desemprego e pela recessão! Numa coisa concordo com João Duque, há que fazer escolhas e as correctas não são as dele...

segunda-feira, abril 25, 2011

Porque é que tão poucos se importam?

Há 37 anos, portugueses lutaram, conquistaram a liberdade, deram-nos um ideal, um conjunto de valores de igualdade, fraternidade, paz, acesso ao emprego, à protecção social, à saúde, à habitação. Foi uma luta árdua que não se fez na praia, nem por conformistas que têm sempre qualquer coisa mais importante para fazer e certamente não foi feita, por quem acha que não vale a pena lutar por um mundo melhor. Infelizmente esses valores foram subvertidos por partidos políticos que esqueceram a noção de bem público e hoje sobra-nos tão pouco. Nem emprego, nem saúde, nem igualdade, com o FMI aí para acabar com o pouco que sobrou. Estão os portugueses de hoje, cientes de que os direitos não são adquiridos? Estão dispostos a abandonar a sua passividade e conformismo, para os exigir de volta? Vão calar perante a perda do direito ao subsídio de ferias e de natal, a redução de salário, o fim da comparticipação dos medicamentos e de um serviço nacional de saúde? O que vão fazer quando já não existirem transportes públicos, escola publica, subsidio de desemprego e doença? Vão calar ou ficar a lamentar o que já tiveram e que foram incapazes de manter, por egoísmo e conformismo?

A sensação que tive hoje ao recordar Abril e os seus valores, enquanto descia a Avenida, foi que são poucos os portugueses dispostos a não calar, a abdicar do seu tempo, a fazer um pequeno esforço... É triste perceber, que tantos mereçam tão pouco o esforço de alguns. Seja o esforço de suportar o sol abrasador na cabeça e a dor nas pernas, seja o esforço de informar, de alertar e de escrever contra as injustiças. Nada disto é por um, é por todos, por um país, pelas crianças, pelo futuro. Porque é que tão poucos se importam?

segunda-feira, abril 18, 2011

Mau demais...

Porque é que há dez dias, que não escrevo? Porque tem sido tudo tão mau, que me deixa estarrecida. Pegar em quê, falar do quê, se já não há pingo de sensatez em coisa alguma. A crítica seria positiva se comparada a um edifício, se pudesse manter os alicerces e reconstruir o resto. Mas nada disto é possível, com esta classe politica incompetente, esta banca traidora, estes economistas desumanos e esta comunicação social imberbe que os alimenta a todos. É um edifício que já só pode ser demolido, de preferência com uma daquelas demolições com dinamite em que só se vê uma nuvem de pó. Isto é um desfile de mentirosos, vendidos e lambe-botas sem remédio possível. Cabe na cabeça de alguém, que com o FMI a querer levar o país à bancarrota, a afiar a guilhotina que sentenciará de morte não só os mais pobres e desprotegidos, mas toda uma classe média, PS e PSD façam das mais tristes figuras da nossa vida democrática? Congressos apoteóticos, que mais parecem comícios fascistas ou assembleias da IURD (ia jurar que o António Vitorino estaria possesso por algum espírito demoníaco)? Abrir os partidos a oportunistas, arautos da cidadania que se vendem aos mesmos que traem os ideais, que antes defenderam? Revelar que se derrubou um governo, por não existir uma reunião que existiu de facto, estendendo a passadeira vermelha ao FMI? Descobrir que o partido da oposição consegue mentir mais que o seu adversário político? E depois querem que exista uma união nacional de toda esta gente imbecil? Devem entender-se? Não percebem que esse entendimento sempre existiu e o resultado está à vista, nenhum destes grupos fez mais nada, que não servir-se do bem público em proveito próprio. Um entendimento fantástico, para levar o país à degradação moral e politica, já não bastava a económica e a financeira…

Há uns tempos atrás, eu não usaria este tom insultuoso, seria construtiva na crítica, apontaria alternativas… e já falei de tantas alternativas, mas com esta elite que nos representa não há esforço construtivo que resulte. Porque não falam estas pessoas da necessidade de uma auditoria às contas, para se saber quem deve exactamente o quê? A divida é pública ou é sobretudo privada e se é privada, não foi a Banca a responsável? Porque se aceitam imposições externas, se a dívida podia ser reestruturada? É preciso que venham outras ideologias e outras propostas. São necessários políticos que defendam os cidadãos, o estado social, vendo o bem público como um fim em si mesmo. É preciso que as pessoas venham antes do lucro, antes da banca, antes da ditadura dos mercados.

quinta-feira, abril 07, 2011

FMI: distinguir os factos da propaganda

O nosso pior pesadelo está aí e se alguém tem dúvidas, o futuro dirá se estou ou não a exagerar. Mais do que nunca é preciso distinguir os factos da propaganda. É preciso perceber que o recurso ao FMI não é uma ajuda, na conotação positiva da palavra. Todo o dinheiro cedido será devolvido com juros elevados e com a consequência dramática da destruição dos padrões de vida essenciais à sobrevivência económica do cidadão comum, e dos serviços públicos e de apoio social fundamentais. A nossa economia será atirada para uma recessão profunda da qual dificilmente sairá. Se olharmos para as medidas forçadas à Grécia e à Irlanda, percebemos o que é facto. Propaganda é associar o FMI ao único recurso, à salvação nacional. O que tem passado na comunicação social a soldo da elite económica que nos governa é vergonhoso, banqueiros e economistas a quem só interessa que venha o dinheiro para receberem os empréstimos a juros escandalosos, que fizeram ao próprio país sem dó nem piedade. Não basta a Banca nunca ter pago os impostos devidos, ter sido sucessivamente excluída de qualquer sacrifício, ter beneficiado de milhões de euros de resgate, tem agora a ousadia de negar apoio ao país e obrigá-lo a cair nas mãos do FMI? Ninguém tenha dúvidas que se trata de uma traição à Pátria, é gente que vende a alma por dinheiro e pior hipoteca a sobrevivência dos mais pobres e desprotegidos dos seus concidadãos.

Se alguém ainda tinha dúvidas que é o poder económico que nos governa, por esta altura estará esclarecido. PS e PSD são os responsáveis por esta situação, foram as suas políticas que colocaram o Estado nesta posição de submissão. É preciso que as pessoas tenham consciência de que os únicos partidos que sempre se propuseram a afrontar o poder económico são o PCP e o BE. Há que distinguir os factos da propaganda. É bom que se perceba que isto já não é democracia, mas sim ditadura do poder económico. Os portugueses vão perceber da pior maneira que há uma nova ditadura a derrubar.

sexta-feira, março 25, 2011

O festim da crise política

O que se me apraz dizer sobre a crise política, esse festim para os mercados patrocinado pelo PS e PSD? José Sócrates não devia ter-se comprometido com um PEC 4 sem dar conhecimento à Assembleia e ao Presidente da República, mas sabemos já que verdade e cooperação não são atributos que o caracterizem. Por outro lado, o governo está totalmente refém dos mercados e da Sr.ª Merkel e não tem praticamente poder de decisão (não esquecer que isto se deve ao rumo politico que PS e PSD têm vindo a seguir há longos anos). Não havia de facto, grande margem de manobra. O PSD sabe disso, tanto sabe que se comprometeu com os outros PECs e quem já apoiou esta estratégia, não deve saltar do barco a meio da viagem. Isto é tão mais grave, quanto o PSD sabe perfeitamente que uma crise política é um festim para os mercados, que vão descer o rating e fazer subir a divida publica, numa altura em que o país, dentro de 2 meses não terá dinheiro para assegurar salários. Mas o PSD não quer saber, ao PSD só interessa o poder e não o prejuízo que provoca ao país. O PSD quer que venha o FMI, que lhe poupará o trabalho de desmantelar o Estado Social e despedir funcionários públicos. Perante isto, José Sócrates e o famigerado PEC 4 são um pedaço de céu. Se vamos a eleições antecipadas, é entre o impossível e o péssimo que os eleitores ficam. Para quê pedir uma escolha destas? Se tivéssemos um Presidente da Republica activo e preocupado, poupava-nos a isto, aceitava a demissão de Sócrates e pedia ao PS para apresentar um novo governo. O PS não consegue arranjar um líder com mais consciência social, menos arrogância, maior apetência para a verdade e para o diálogo? No entanto, tudo aponta para eleições antecipadas (estas já não ficam caras ao país, como a 2ª volta das presidenciais?), sendo o mais preocupante desse cenário, o desconhecimento total dos eleitores das verdadeiras intenções do PSD. Não sabem a elite económica e perigosa que puxa os cordelinhos da marioneta Passos Coelho, não sabem o que significa a vinda do FMI, não percebem que vão ficar sem SNS, sem escola pública e sem apoio social. Este PSD não tem nada de social-democrata é outra coisa e é bom que as pessoas se informem e percebam isto, antes de votarem.

Onde ficam os restantes partidos no meio disto tudo? O CDS-PP partilha a ambição de poder do PSD e está convencidíssimo que será necessário para uma maioria, daí o interesse no acto eleitoral. À esquerda, os partidos que se recusam a ser poder, têm sempre afirmado que existem alternativas e que são absolutamente contra este PEC. O PCP acha que o governo podia continuar e que não iríamos a eleições, posição que me parece mais responsável que o desejo avassalador do BE nas eleições antecipadas. Um partido de esquerda responsável não pode desejar eleições que vão colocar no poder um partido de direita neo-liberal. Será o BE ingénuo ao ponto de pensar que o PSD não ganha as eleições? Ou pensará que obtém mais votos, depois da jogada politica da moção de censura, que mostrou aos eleitores que os queriam diferentes, que fazem tanta politiquice como os grandes partidos e ainda abrem a porta ao Passos Coelho? Têm toda a razão em apontar políticas alternativas, concordo absolutamente, mas sejamos pragmáticos, a realidade actual é que o governo está sem margem de manobra (a politica da UE não admite alternativas) e a direita mais neo-liberal de sempre pode chegar ao poder. É isso que querem?

Nota: A imagem é um cartoon de Quino.

segunda-feira, março 21, 2011

Dia Mundial da Poesia



António Ramos Rosa, "Passagem"

sexta-feira, março 18, 2011

E agora?

300 mil pessoas saem à rua e a única reacção do Primeiro-Ministro é manifestar compreensão, tendo em conta que na véspera anunciou o chamado PEC 4. No mínimo, podia ter anunciado medidas para transformar os falsos recibos verdes em contratos de trabalho. Qualquer coisa que desse alguma esperança às gerações que se uniram numa expressão comum de indignação. Qualquer recompensa pela maturidade cívica que as pessoas demonstraram, sempre ordeiras e pacatas. Nenhuma... a recompensa foi o anúncio de mais medidas de austeridade desigualmente distribuídas. É aceitável que se congelem pensões de 200 euros e se facilite os despejos, enquanto se desce o IVA do golfe de 23% para 6%? Não será isto empurrar cidadãos pacíficos para soluções populistas de extrema-direita, agravando a indignação e colocando em risco a própria democracia? Não se pode negar que a manifestação de 12 de Março foi de profundo descontentamento com a classe politica, com a corrupção e a governação em função de grandes interesses económicos. E o governo reage confirmando esta ideia.

Só nos resta esperar que os cidadãos resistam ao discurso anti-democrático, tenham em mente que o discurso da direita é o das privatizações, do fim de serviços públicos essenciais e do “despedimento por razão atendível” e que saibam ver onde está a verdadeira alternativa. Resta esperar que saibam capitalizar o descontentamento em novas iniciativas de protesto, a favor de uma democracia pura, da seriedade politica e da afirmação dos direitos ao trabalho, à igualdade e à felicidade. O importante é não desmobilizar até a mudança acontecer, precários, trabalhadores, sindicatos, filhos, pais e avós podem unir-se na exigência de uma politica alternativa. Sendo assim não me parece incompatível que quem saiu à rua no dia 12, volte a fazê-lo amanhã e no dia 25 de Abril!

sexta-feira, março 11, 2011

12 de Março e o direito a expressar aspirações legítimas

Muito se tem falado da manifestação de amanhã, das intenções ou movimentações políticas que possam estar na sua origem. Acenam-se fantasmas de extremismos de esquerda e de direita, de anarquistas a fascistas. Ignora-se o fundamental, que é tão simples quanto isto, é impossível sobreviver com baixos salários, sem direitos ou garantias sociais ou laborais e sem qualquer perspectiva de melhoria deste quadro dramático. Pelo contrário, o que se tem verificado é um agravamento e uma deterioração das condições de vida e de trabalho. O mais chocante é que se sabe dos lucros obtidos pela Banca e pelas grandes empresas, como a EDP, a GALP, PT, Jerónimo Martins e etc, sabe-se da corrupção e do tráfico de influencias, da promiscuidade entre estas elites, entre políticos, gestores públicos e grandes empresários. A crise, as dificuldades económicas não passam por eles e toda a gente percebe que isso não só não é justo, como é profundamente imoral e errado.

Portugal é o segundo país da Europa com maior percentagem de trabalhadores contratados a prazo, segundo os dados mais recentes do European Company Survey. Estima-se que 2 milhões de pessoas estejam numa situação laboral precária, 600 mil desempregados, quantos mal remunerados, quantos sem rendimento ou com reformas miseráveis? Mais que uma geração, são várias gerações afectadas, as que não se auto-sustentam vão sobrecarregar outras que as ajudam a subsistir... Esta realidade pode continuar, perante o nosso silêncio e a nossa inacção? Uma realidade diferente é possível e há falta de estratégia mais eficaz, é na rua que as pessoas se fazem ouvir. E porque não amanhã? Sem aproveitamento político, porque o direito à felicidade e à qualidade de vida, está acima de qualquer politiquice e é uma aspiração legítima do ser humano!

terça-feira, março 08, 2011

Are We Equals?


Não sei se é impressão minha ou o feminismo passou de moda. Como se as mulheres tivessem de repente conquistado salários e direitos iguais, como se não fossem sobrecarregadas com o fardo das tarefas domésticas e a educação dos filhos, como se não fossem cada vez mais sacos de pancada em relações destrutivas, que em números assustadores, aumentam anualmente. Quantas mulheres perdem a sua identidade e a sua dignidade para acumular o impossível papel de excelente profissional, boa mãe, esposa dedicada? Quantas se deixam assediar e humilhar para ser o que a sociedade e os homens esperam delas? Estou a exagerar? A ser feminista fora de moda? Os factos falam por si:


Mulheres despedidas duplicam em dois anos


Desigualdades persistem no centésimo dia internacional da mulher


Mulheres são "mais sacrificadas" com a crise e o desemprego


43 mulheres foram mortas em Portugal em 2010, vítimas de violência doméstica: 250 mortes em 7 anos


Relação de Coimbra confirma que dar duas bofetadas na ex-mulher não é violência doméstica


Um quarto dos namoros adolescentes são violentos

...


domingo, fevereiro 20, 2011

Um “stalker” chamado Badoo


As redes sociais conquistaram um papel de destaque na Internet, quer se goste, quer não. Acho que como em tudo na vida, devem ser usadas com precaução e tendo em conta o que se quer efectivamente partilhar. O pior é quando deixamos de controlar a situação. Se a rede social se apropria dos contactos de e-mail de um amigo nosso, passa a ter acesso também aos nossos contactos. Um exemplo é o “Badoo”, que tem também uma aplicação no Facebook. Quando um amigo nosso tem a infeliz ideia de nos convidar para a “sua comunidade”, percebemos da pior maneira, como a nossa privacidade é afectada. Primeiro vem o convite e logo aí percebemos que o Badoo já explorou os nossos contactos e simpaticamente enumera “as pessoas que esperam pacientemente por você”. Até podem ser nossos amigos, como pessoas que não queremos ver nem pintadas, e que não devem esperar pacientemente por si de certeza.

Ignorado o convite, o Badoo insiste «Leia as mensagens deixadas por Fulano de tal para você, antes que sejam deletadas!». Percebo agora a insistência, eu não falo brasileiro, de modo que o Badoo não percebeu, eu devia ter explicado que queria é q eles me “deletassem” e às pessoas que esperam pacientemente por mim! Já me deixam furiosa porque invadiram a minha lista de contactos, sem a minha permissão e nem a minha língua falam? Não é tarde, nem é cedo... clico em “não quero receber mais mensagens do Badoo”. Resposta:

Finalmente, você recebeu um email…

Você recebeu um email do Badoo, porque:

* Seu amigo decidiu convidar-lhe para conferir seu perfil e em suas novas fotos e vídeos;
* Um usuário acidentalmente forneceu o seu endereço de email, em vez do dele. Todos nós erramos…

O que devo fazer agora?

Você tem duas opções:

Descobrir o que os 107,131,414 usuários estão fazendo aqui

De longe a sua melhor opção :)
ou

Bloquear todos os emails futuros

Não recomendado :(

Marketing pretencioso? Ah sim, claro que resulta comigo... adivinhem a opção que eu seleccionei... Resposta:

Seu desejo é uma ordem

Não serão enviadas mais mensagens para fulana@gmail.com.
Mas quando mudar de idéia, volte. Nós estaremos aqui esperando você.

Deixem-me responder numa linguaguem que o Badoo perceba: “Cara v’cê tá deletado, né? Fica esperando sentado, meu chapa!”

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Dos parvos, dos hipócritas e dos lixados

Confesso que achei que a música dos Deolinda “Parva que eu sou” dispensava comentários, porque fala de uma realidade que já todos devíamos conhecer. A precariedade é por acaso alguma novidade? Não é... possivelmente musicar a precariedade é uma novidade nos dias que correm e se chamou a atenção de quem eventualmente andava distraído, melhor ainda. O que a música provocou foi uma avalanche de opiniões, que vão desde o aproveitamento politico da musica pela esquerda e pela direita à comoção hipócrita, passando pelo simples encolher de ombros.

Comecemos pelo aproveitamento político. Que a esquerda faça da música um hino não me surpreende, porque têm sido os partidos mais à esquerda que mais propostas têm apresentado no sentido de combater a precariedade no trabalho (faço a ressalva que o governo não é de esquerda e o que mais tem feito é agravar as condições de trabalho). O que me surpreendeu foi que a direita também pegasse na música, para dizer que foram os gastos exagerados do estado social com os direitos e garantias da geração anterior, os culpados da situação dramática da geração parva. Não há nada como criar um bom conflito inter-geracional! Esses sacanas que tiveram o privilégio de ter reformas, subsídios de doença e desemprego, não deixam os filhos passar dos recibos verdes e dos 500 euros mensais...Como é óbvio, não falam dos verdadeiros responsáveis pela situação, sucessivos governos pós-25 de Abril que fizeram uma gestão ruinosa do bem publico, alimentando clientelas e elites económicas que controlam a Banca, as grandes empresas e a Administração pública.

Depois existem os hipócritas, aqueles que ficam imensamente comovidos com a desgraça da geração parva, ou pelo menos dizem que ficam. Chamo-os de hipócritas, porque muitos deles têm posições de poder, pertencem à tal elite abusadora e têm a trabalhar para si jovens com recibos verdes, contratos precários e com salários baixos. Efectivamente podiam fazer alguma coisa por esta geração e não fazem, limitam-se a reconhecer a injustiça, mas não podem fazer nada, porque isso implicaria perderem regalias de novos-ricos das quais não estão dispostos a abdicar.

Depois existem os que encolhem os ombros. São os que acham tudo isto normal e inevitável, os que acham que é assim e não há nada a fazer, os que nem querem discutir o assunto, muito menos informar-se das alternativas e os que fulminam aqueles que se queixam e se revoltam contra a situação. Não querem chatices, nem preocupações. Os pais deram-lhes tudo e vão continuar a dar. Independência económica, dignidade ou realização são conceitos estranhos que ficam para os “lixados” procurarem. O que nos leva aos lixados. Por ultimo, os lixados são aqueles que não têm pais ricos que os sustentem, não têm cunhas, cartões de militante e para mal dos seus pecados, percebem o que está errado e até querem mudar o que está errado, mas sozinhos não podem... Então quem muda isto? Se os hipocritas não querem, resta saber quando é aqueles que encolhem os ombros ficam lixados...

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Sacríficios para quem e para quê?

Numa altura em que nos são exigidos mais impostos, redução de salários e perda de direitos na saúde, na educação, na segurança social, não é aceitável que a Banca continue a obter milhões de lucro e que pague menos impostos que no ano passado. Os principais bancos lucraram 1.435 milhões de euros, mas os impostos pagos desceram para metade, o fisco recebeu menos 150 milhões de euros. Como tenho vindo a repetir, a percentagem de IRC é muito abaixo do exigido a qualquer empresa ou comerciante. Mais uma vez se confirma que os sacrifícios são desigualmente distribuídos na sociedade.

Também não é aceitável, perante duros cortes orçamentais no ensino público, colocando em causa o funcionamento normal das instituições, que o governo continue a subsidiar o ensino privado e tenha recuado nos cortes que pretendia fazer. Quando existe alternativa no ensino público, como se explica que se esteja a subsidiar instituições que proporcionam elevados lucros aos seus proprietários, que ainda recebem pagamentos elevadíssimos dos alunos? O que é certo é que continuamos a ouvir largos elogios à competência da gestão privada, mas que ainda assim precisa de financiamento do Estado!

E o que dizer da saúde e das parcerias publico-privadas nos hospitais, ruinosas para o Estado e muitas vezes para os doentes? Basta olhar para o caso do Hospital de S. Marcos em Braga. Desde 1 de Setembro de 2009, no âmbito de uma parceria público-privada, a urgência polivalente do S. Marcos, é gerida pela empresa Escala Braga, do grupo Mello Saúde, e é remunerada pelo Ministério da Saúde para estar disponível 24 horas por dia. No entanto, enviavam sistematicamente pacientes para o Hospital público de S. João, alegando que não tinha médicos nas urgências e lesando o Estado em 273 mil euros. Assim é fácil ter lucro! São opções sistematicamente adoptadas e lesivas para o Estado. Quando nos exigem sacrifícios, o mínimo que se pode pedir como contrapartida é uma gestão eficiente desse esforço!

domingo, fevereiro 06, 2011

Ai coitadinho...

O António Mexia é um injustiçado. Foi duramente criticado por ter recebido 3 milhões de euros em 2009, mas alegadamente recebe uma remuneração muito “abaixo do que se paga lá fora”. Para quem duvida que €3.1 milhões/ano seja uma injustiça e uma remuneração “abaixo do que se paga lá fora”, nada como uma pequena pesquisa no Google. Vamos pesquisar remuneração presidente da EDF (o congénere francês do Senhor Mexia) e rapidamente encontramos um artigo que condena a remuneração anual do presidente da EDF, Henri Proglio. “Et, voilá!” , Henry Proglio recebe €1.6 milhões anuais contra os €3.1 que o Mexia recebeu em 2009! Abaixo do que se paga lá fora??

E este jornalista chama fat cat ao Presidente da EDF, que para além de um salário milionário ainda o acumula com um 2º salário, o que perfaz um rendimento anual de 2 milhões de euros. Concerteza que sim, mas o que diria ele do nosso genial António Mexia, com a sua proeza de obter lucros em regime de monopólio, consegue com um só salário, um rendimento anual de 3 milhões de euros? Vai muito para além de fat cat! Deixemo-nos de injustiças!

E já agora, porque é que a nossa imprensa suave não fez esta pequena pesquisa e completou a notícia, tentando demonstrar a veracidade dos factos? Sem comentários...

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Pela liberdade ou pela justiça social?



Muito se tem falado da Tunísia e do Egipto, dos levantamentos populares em nome da democracia. O que está em causa são uns terríveis ditadores, cuja opressão se tornou insuportável para as populações. Mas estes levantamentos, mais que a liberdade exigem justiça social. Se a liberdade fosse a única coisa em causa, já teríamos assistido a estas movimentações há anos atrás. Sem querer desvalorizar a defesa da liberdade, que é fundamental, chamo a atenção que se exige mais. Será coincidência que os Média não falem no desemprego, no aumento do custo de vida, nos jovens licenciados sem perspectivas e num contexto de completa crise social, que foi o rastilho de pólvora para os levantamentos populares? Claro que não, podiam as pessoas começar a fazer comparações... afinal de contas, em Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, não há desemprego, pobreza e jovens licenciados sem perspectivas...

O melhor é mesmo que cá se pense, que lá longe existem uns povos a pedir democracia e a lutar contra os ditadores maus. Nada disto tem a ver connosco! Os nossos problemas não têm nada a ver. Nós não precisamos tanto de justiça social, de igualdade de oportunidades, de emprego e direito à felicidade como precisamos de democracia e de liberdade... Espero sinceramente que tunisinos e egípcios vençam esta batalha e que a sua luta pela justiça social e por uma democracia fraterna, venha a ser também a nossa.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Mais Cavaco não!

Em véspera de eleições presidenciais, não posso deixar de justificar o meu redondo não a mais cinco anos de Cavaco Silva. Só um candidato levado ao colo pela comunicação e por elites muito influentes deste país, consegue escapar impune ao escândalo das mais valias com a venda da SLN, a permuta sem escritura da vivenda de luxo na Aldeia da Coelha propriedade da SLN. Tudo isto acompanhado de uma total ausência de explicações. E o que dizer da persistente defesa dos mercados e deste plano de austeridade? E a posição perante o estado social, que se resume à caridadezinha privada? E no conservadorismo demonstrado quando tratou temas como o casamento gay e a mudança de sexo, no completo desrespeito pela liberdade individual? Do caso das escutas, já ninguém se lembra porque foi sacrificado um homem da sua confiança? E o que dizer da conversa mesquinha e machista da reforma de 800 euros da esposa, vindo de alguém que acumula reformas, num país onde há reformas de 200 euros?

Se ainda assim encontra justificação para votar Cavaco Silva, aconselho a leitura dos posts destes excertos:

«Insistiu na mesma lógica de subalternização aos mercados e à Alemanha e França, que nos trouxe ao atoleiro em que estamos. Seria pior? Como se os juros da divida não parassem de subir… Pode dizer que a imprensa é suave e ninguém se indigna... E o que dizer, da insistência em remeter para o site da Presidência? Ele não tem que informar, nem explicar aos eleitores, eles que vão ler e informar-se, não é para isso que servem os debates? Mas para quê esclarecer que as falcatruas do BPN, foram da responsabilidade dos seus protegidos políticos e que graças a isso, Cavaco Silva obteve lucros de 100%? Então um economista, um homem de finanças não acha estranho as margens de lucro que teve, não suspeitou de nenhuma ilegalidade? Atreve-se a comparar as suas poupanças às da generalidade dos portugueses?»


Repito: Votem em quem quiserem, mas no conservador, subserviente, falso moralista que enriqueceu à custa das ilegalidades do BPN, arrogante e defensor da caridadezinha, não!

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Sobre o “Inside Job – A verdade da crise”

Finalmente consegui ir ver o “Inside Job – A verdade da crise”. Vale mesmo a pena ver, não só pelas revelações das promiscuidades entre os banqueiros/políticos/economistas, que isso já não é novidade, mas sobretudo pelas entrevistas aos protagonistas da crise e verificar as respostas e justificações que dão. É assustador verificar que ficamos na dúvida, se as pessoas são desonestas e sabem que o são e não se importam, ou se pior ainda, não percebem que estão a fazer algo desonesto porque já estão formatados para pensar friamente na obtenção do lucro, sem qualquer espécie de noção ética. Dou um exemplo. Num dos excertos das comissões de inquérito no senado, um senador pergunta a um dirigente da Goldman Sachs, baseado num mail de um colaborador seu, referindo-se uma determinada empresa como sendo uma “merda”, porque é que ele vendia aquela empresa aos clientes/investidores como lucrativa. Interrogava-se se ele não achava que isso era fraude. A resposta foi que a preocupação com cliente era apenas na perspectiva do dinheiro que lhe daria a lucrar e não com a verdade. O único problema ali foi que o colaborador não devia ter escrito essa informação num e-mail.

É impressionante como não só não se vê qualquer sentido de ética, como também não existe a mais elementar noção de bem ou mal… Ao contrario deste dirigente, um tipo que rouba uma carteira, sabe que está a fazer mal, o que mostra como estas pessoas são extremamente perigosas. E o mais espantoso, é que nenhuma acusação formal foi feita, nenhum processo judicial está em curso. Aliás quando o Estado injectou os primeiros milhares de dólares, para tentar resgatar a AIG, a contrapartida era que esta não agisse judicialmente contra a Goldman Sachs por fraude.

Mas voltando aos protagonistas da crise, tenho que destacar Frederic Mishkin. Professor de economia da escola neoliberal pura e dura, que como os seus colegas, enriqueceu e ganhou prestigio a vender artigos, estudos ou serviços de consultadoria financeira a países/empresas pró-desregulação, até chegar à Reserva Federal. Este senhor escreveu uma obra bastante séria sobre a economia da Islândia, financiada pelo próprio governo islandês, a elogiar a estabilidade do sistema financeiro, isto já com indícios que aquilo ia rebentar. E quando o jornalista pergunta em que se baseou ele, gaguejou «nas informações a q tive acesso», percebe-se na expressão dele, que não tinha como fundamentar nada, aquilo teve tanto de investigação científica como a astrologia. E a melhor é que o estudo chamava-se "Financial Stability in Iceland" e convenientemente no CV actual do Professor, o livro chama-se "Financial Instability in Iceland"… por isto recebeu 124 mil dólares.

São pessoas como Mishkin que estão no governo a bloquear medidas de regulação do sistema financeiro, que fazem lobby junto do Senado, que estão na Goldman Sachs, em bancos de investimento como o Merril Lynch e nas famosas agencias de rating, Moody's, a Standard & Poor's e a Fitch. Foram estas agências que classificaram de AAA instituições de crédito e empresas que apresentaram falência dias depois, as mesmas que hoje especulam com a nossa divida. E apesar das evidências de falta de credibilidade, continuam a fazer o que sempre fizeram sem qualquer supervisão, processo judicial, numa total impunidade… Os contribuintes pagaram e vão continuar a pagar a pesada factura da recessão, do desemprego, da perda de poder de compra e de qualidade de vida. “Inside Job – A verdade da crise” mostra claramente como isso aconteceu e quem são os culpados.

sábado, janeiro 01, 2011

2010: o meu balanço

Andei pelo meu blog, a ver o que eu sentia nos últimos dias de Dezembro dos anos que passaram. É incrível como as preocupações se repetem e todos os anos lamento «O olhar triste daqueles que deixaram de acreditar que o próximo ano será melhor». Aqui fica o ano de 2010, revisto pela minha memória subjectiva e selectiva:

A música
“The suburbs” – Arcade Fire
“A Day In The Day Of The Days” - Noiserv
“High Violet” – The National
“Lights&Darks” – Rita Redshoes

O poema
“Mistério do mundo” – Fernando Pessoa
“Invictus” – William Ernest Henley

O filme
“Shutter Island”
“Inception”
“New York I love you”

A série
Nada de novo, como “Lost” acabou, continua a ser “House MD”, “Fringe”, “Dexter” e “The daily show with Jon Stewart”

Preocupante…

Os odiosos planos de austeridade a pretexto da crise financeira provocam uma verdadeira catástrofe social e o aumento da pobreza
A escandalosa protecção à banca e ao sistema financeiro
A acção dramática do FMI na Irlanda
O aumento de catástrofes naturais causadoras de muitas mortes e prejuízos (sismos no Haiti, Chile e China, cheias no Paquistão…) que só levam a pensar que a ganância do homem e a destruição do meio ambiente, terá um preço cada vez mais elevado
O que acontece quando se denunciam os podres da democracia – caso Wikileaks e prisão de Julian Assange

Por cá, não menos preocupante…

Batem-se recordes dramáticos: 600 mil desempregados, 20% da população é pobre, 40% ganha menos que 600 euros mensais
Os planos de austeridade do governo socialista de direita, empenhado em arruinar os mais desprotegidos, doentes, desempregados
Sistematicamente é excluída dos sacrifícios uma elite que controla a banca e o sistema económico em geral, cuja promiscuidade com o poder politico é evidente
Lançam-se as fundações de uma recessão em 2011, que lançarão milhares na pobreza e no desemprego, numa injustiça social sem precedentes
O olhar triste daqueles que deixaram de acreditar que o próximo ano será melhor, que vejo desde 2006 e infelizmente volto a ver este ano... (sim, infelizmente repeti-me)

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Conclusões do debate

Espero que com o debate de ontem, as pessoas tenham finalmente percebido quem é Cavaco Silva. Veio ao de cima a agressividade, a arrogância, o falso moralismo, a incapacidade em lidar com a crítica e a de esclarecer qualquer questão. Então, quando confrontado com a questão do estado social, ele responde com instituições privadas de solidariedade social e com a caridadezinha da campanha das sobras dos restaurantes? O Estado social não é isso, nem é de caridade que as pessoas precisam, o que é necessário é que os estados garantam justiça social e igualdade no acesso ao emprego e à riqueza. Será que queremos um Presidente da República que confunde caridedazinha com Estado social? Infelizmente Manuel Alegre, deixou cair esta argumentação e não distinguiu os conceitos.

Insistiu na mesma lógica de subalternização aos mercados e à Alemanha e França, que nos trouxe ao atoleiro em que estamos. Seria pior? Como se os juros da divida não parassem de subir? Pode dizer que a imprensa é suave e ninguém se indigna... E o que dizer, da insistência em remeter para o site da Presidência? Ele não tem que informar, nem explicar aos eleitores, eles que vão ler e informar-se, não é para isso que servem os debates? Mas para quê esclarecer que as falcatruas do BPN, foram da responsabilidade dos seus protegidos políticos e que graças a isso, Cavaco Silva obteve lucros de 100%? Então um economista, um homem de finanças não acha estranho as margens de lucro que teve, não suspeitou de nenhuma ilegalidade? Atreve-se a comparar as suas poupanças às da generalidade dos portugueses?

Mesmo que Alegre não tenha conseguido assinalar estas contradições, o próprio Cavaco silva demonstrou o tipo de pessoa que é e não é certamente o que o país precisa. Votem em quem quiserem, mas no conservador, subserviente, falso moralista que enriqueceu à custa das ilegalidades do BPN, arrogante e defensor da caridadezinha, não!

domingo, dezembro 19, 2010

O FMI não está cá! Está, está...

O governo continua extremamente empenhado em seguir a agenda neoliberal da EU, numa crença ingénua que isso tranquilizará os mercados. A novidade da semana é que os problemas do país estão num mercado laboral demasiado rígido. Quem havia de dizer? Não certamente os mais de 500 mil portugueses desempregados, nem os que trabalham a recibo verde ou a contratos a prazo que a qualquer altura podem ser despedidos. Diz a UE, dizem os economistas brilhantes, logo o governo apressa-se a apresentar um pacote de medidas para tratar de flexibilizar um mercado de trabalho extremamente flexível, colocando em perigo o emprego dos que ainda o conseguem ter.

Veja-se o genial impacto de reduzir o valor das indemnizações e de obrigar as empresas a criar um seguro de despedimento. É mais barato despedir, o que compensa, porque se despedir um trabalhador com alguns anos de casa, que já não estará no escalão salarial mais baixo, pode-se contratar alguém novo e desesperado, disposto a fazer o mesmo trabalho por um salário menor. E o que dizer do seguro, para além de uma despesa extra para quem contrata, só dará lucro se for activado... porque não despedir se ainda se recebe o dinheiro do seguro? Entretanto ainda ganha a Banca que detém as seguradoras! Ficam os “fat cats” felizes e dos trabalhadores, entre a precariedade e o desemprego, o governo e a Europa não querem saber. Nem o FMI faria melhor...

segunda-feira, dezembro 13, 2010

A pobreza deve envergonhar quem?

Vem o Senhor Presidente da República dizer que a pobreza nos deve envergonhar a todos. Pois fique sabendo que a única vergonha que eu sinto, é que o senhor enquanto governante durante todos estes anos, nada tenha feito para reduzir a pobreza, a desigualdade e a injustiça social. Pelo contrário, promoveu politicas que nos encaminharam para a dramática situação, em que hoje nos encontramos. A pobreza não me envergonha, entristece-me e revolta-me. Sentiria vergonha se o tivesse eleito, na esperança que resolvesse a questão da pobreza e sendo assim poderia sentir-me responsável. Felizmente sempre percebi a falsidade e a cobardia, de quem não assume responsabilidades pelas medidas que tomou enquanto governante e tendo feito carreira política, nem se assuma como politico. Falta-lhe autoridade moral, para passar responsabilidades que são suas para os cidadãos do seu país. Foram governos seus e do seu partido que permitiram a acumulação de mordomias pelos amigos, de parcerias publico-privadas ruinosas, de politicas de emprego assentes em baixos salários e na precariedade, na destruição do aparelho produtivo nacional e na delapidação do estado social. Enquanto Presidente da Republica promoveu a austeridade, desculpabilizou o sistema financeiro e permitiu a concretização deste PEC, que mais não é que a consolidação da politica que promoveu enquanto Primeiro-Ministro. O combate à pobreza nunca foi um objectivo seu, mas pretende-se agora envergonhado e apela à caridedazinha que mata a fome de alguns, mas não resolve os problemas de quem precisa de um emprego, de uma oportunidade, de um salário que lhe permita viver com dignidade. Essas preocupações nunca foram as suas, por isso guarde a vergonha para si e não passe as responsabilidades para quem não as tem.

Nota: Se os Portugueses querem para Presidente da República um senhor que acha que resolve o problema da pobreza com sobras de restaurantes, algo está muito mal!


terça-feira, dezembro 07, 2010

Compadrios e cunhas em estudo

Qualquer pessoa que viva e trabalhe em Portugal, já se apercebeu do intricado sistema de cunhas e compadrios que pulula em todos os sectores de actividade. O sector público ou o domínio das parcerias público-privadas torna-se mais evidente, porque ao habitual compadrio, junta-se o cartão partidário da cor certa. O que antes era um pouco vago, foi agora estudado com maior detalhe por um investigador português na Universidade Queen Mary de Londres:

«Pedro S. Martins estudou o período de 1980 a 2008, estabelecendo firmas do sector privado como grupo de controlo comparativo, e concluiu: "As nomeações do sector público aumentam significativamente ao longo dos meses imediatamente antes de um novo governo tomar posse. Também aumentam consideravelmente logo após as eleições, mas somente se o novo governo é de uma cor política diferente da do seu antecessor." (…) Os dados apontam para um "aumento significativo em contratações", que pode ir dos 10% aos 20%, no trimestre seguinte à entrada em funções de um Governo. Esse aumento, segundo as conclusões do estudo, começa porém a ocorrer antes das eleições - ou seja, antes de um Governo abandonar o poder. E o compadrio não se resume às posições de topo na hierarquia das empresas públicas: está espalhado por toda ela.


Este estudo só prova a existência de uma mentalidade cortesã que premeia a bajulação e a filiação partidária, em detrimento da competência, o que só por si explica a ineficiência e má gestão e a própria produtividade. Tenho sérias dúvidas que esta realidade esteja assim tão longe do privado... Mas a grande questão é porque a UE, não exige uma moralização do sistema e prefere mandar flexibilizar um mercado de trabalho, já de si precário e mal remunerado. Será que não sabem da corrupção e do compadrio, dos negocios ruinosos para a estado e das reformas milionarias acumuladas com salários?

quinta-feira, novembro 25, 2010

Dignidade no trabalho exige-se

Na sequência da greve geral, acho que faz sentido falar um bocadinho do mundo do trabalho. Todos nós já ouvimos histórias de horas extra não remuneradas, pessoas que fazem o trabalho de 2 ou 3, pressões psicológicas de vária ordem, remunerações baixas, falsos recibos verdes e podia continuar. Tudo isto acontece com um Código de Trabalho demasiado rígido, o que seria se não fosse… São muitos os motivos para o descontentamento e a indignação. Mas o mais preocupante é que a tendência é para ver a situação piorar. Veja-se o que se passa na Inglaterra. Na semana passada, o governo britânico anunciou que os desempregados que solicitam auxílio deverão realizar trabalhos não remunerados: caso se neguem a fazê-lo, perderão o subsídio. Estamos a falar da obrigação de realizar trabalhos de jardinagem, limpeza de lixo e outras tarefas manuais por apenas 1 libra/hora. Que melhor estratégia para eliminar postos de trabalho e reduzir custos, usando mão-de-obra quase gratuita?

A retórica que justifica este tipo de medidas, também é nossa conhecida: «esses preguiçosos que não querem trabalhar». Basta ver as últimas reportagens da RTP, para ver este argumento exibido até ao vómito. O que a RTP não disse, é quantos empregos disponíveis existem relativamente ao número de desempregados. No caso da Inglaterra, alegadamente pejada de preguiçosos, temos 459 mil empregos para 2,5 milhões de desempregados. Um preguiçoso poderá ter que disputar o trabalho com 250 colegas… se não conseguir terá de contentar-se com a categoria de desempregado trabalhador, 1 libra hora sem qualquer perspectiva de melhoria social, sabendo que antes estava no seu lugar alguém com emprego. Estamos muito perto da Servidão e não é impressão minha.

É urgente uma mobilização pelo regresso da dignidade no trabalho, seja com greves, protestos ou criticas em conversas de café. Ou melhor inventem-se formas eficazes de protesto, antes que seja tarde demais. Há coisas muito simples do dia-a-dia que alimentam o sistema que nos quer semi-escravos e das quais podemos abdicar: produtos bancários de investimento em acções, cartões de crédito e afins, consumismo irracional em produtos dispensáveis e porque não seguir a sugestão do Cantona? Agir é mesmo necessário!

domingo, novembro 14, 2010

Lição sobre injecção de liquidez da Reserva Federal

Para perceber a decisão da Reserva Federal norte-americana de adoptar medidas especiais de injecção de liquidez, este videozinho é extremamente esclarecedor:



Pergunto eu: O Presidente dos EUA, que deixa a Reserva Federal, aka a Goldman Sachs, fazer o que quer da economia, tem legitimidade para vir dar lições de política monetária ao resto do mundo? Como dizem os bonequinhos dá vontade de bater com a cabeça na parede, se os custos com a saúde não fossem tão elevados...


quinta-feira, novembro 11, 2010

Quem são mesmo os especuladores?

Já não bastava as medidas de austeridade que começamos a sentir na pele, ainda temos que ouvir falar da subida constante do juro da dívida portuguesa. O juro já ultrapassa os 7% e demonstra a completa inutilidade de todos os sacrifico que nos foram impostos, isto porque brincar com a nossa dívida, continua a ser muito lucrativo para os especuladores. O que não nos é explicado é quem são estes especuladores. Não se pense que são só bancos estrangeiros, a banca portuguesa adquiriu 300 milhões da divida do próprio país e por cada milhão adquirido, exigem o pagamento de 2 milhões dentro de dez anos. Grande negócio à conta dos contribuintes portugueses, que empobrecem a olhos vistos. É espantoso o sentido de solidariedade e a distribuição de sacrifícios, já não basta não pagarem os 25% de imposto que qualquer empresa paga, ainda obtêm lucros milionários à custa do esforço dos restantes contribuintes.

Interessante ainda, é que o Banco Central Europeu também comprou dívida portuguesa. A instituição europeia que devia ter como função auxiliar os estados membros, também especula em torno da nossa divida. Quando podia emprestar dinheiro ao Estado com juros de 1%, o BCE obriga-o a endividar-se junto da banca privada a 7% e ainda tem a falta de vergonha de comprar essa mesma dívida.

É este o sistema que nos pedem para aceitar? É sobre isto que Cavaco Silva fala, quando refere que uma «retórica de ataque às posições dos mercados» é um «erro» para Portugal, que deve trabalhar para «aumentar a competitividade da economia». Para além de pobres, também temos que ser burros e acríticos?

segunda-feira, novembro 01, 2010

Austeridade para tótós




domingo, outubro 31, 2010

"Duas metades do mesmo zero"

É difícil escolher o momento da semana mais merecedor de indignação, se a encenação de um acordo entre PS e PSD, como se o acordo tornasse a nossa situação menos dramática ou dolorosa, se o anuncio do super candidato Cavaco sem o qual estaríamos bem pior, se a dupla Merkel/Sarkozy a retirar democracia à UE. Para já fico-me pela primeira. Da novela do acordo, nada mais há a dizer, para além da vergonha de dois partidos se preocuparem com proveitos eleitorais em vez de se preocuparem com a vida das pessoas, que vão sacrificar com este orçamento. Ideologicamente nada os separa, é a completa ausência de preocupação social. O orçamento continua mau e como existem 500 milhões que iram sair do nosso bolso, bem podemos preparar-nos para piores notícias. Que bem que assenta aqui uma citação de Guerra Junqueiro:

«Dois partidos (…), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (…) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (…)»

O agitar de um telemóvel ou o lamento é de uma foto histórica que ficou por tirar é o desfecho desta triste encenação. O que seria de lamentar é o futuro dos portugueses, que vão lutar por se manter à tona de agua, enquanto lêem as noticias dos lucros de 40% da Jerónimo Martins, da banca ou da acumulação de reformas milionárias, como a do ilustre Sr. Catroga. Deve ser fácil negociar o que não nos toca a nós.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Hipocrisia

Continua a saber-se aos bocadinhos os detalhes da austeridade, agora ficamos a saber que a taxa contributiva dos trabalhadores a recibo verde e com contratos a prazo vai aumentar. Numa coisa realmente o governo é coerente, o ataque aos pobres e desprotegidos é uma constante. Já não basta a precariedade, a inexistência de subsídios de natal, férias ou de doença, a angústia de não saber por quanto tempo terá trabalho e a injustiça de se estar em situação de “falso recibo verde”, acresce um aumento da carga de impostos. Mais uma vez, não se tem em conta a taxa de esforço destes trabalhadores, nem as condições desfavoráveis que já os afectam.

Ao mesmo tempo o governo anuncia quanto vai gastar com o BPN, nada mais, nada menos que 400 milhões, e já não falo no quanto vai gastar em assessoria e em propaganda. É bom que se saiba em nome de quê, se fazem sacrifícios. Em nome do salvamento dos bancos irresponsáveis, é óbvia a injustiça, mas pior é a ironia de estarmos a pagar as mentiras e a propaganda, que nos vão impingir depois, para aceitarmos de ânimo leve os sacrifícios que nos são exigidos. Que é uma injustiça, um assalto até, já percebemos, mas precisava de se revestir de hipocrisia e mesquinhez?

Por falar em hipocrisia, os ministros das finanças da austeridade reúnem-se na UE com o compromisso de eliminar o desemprego em 2020. Parece anedótico que as mesmas pessoas que actualmente estão a impor medidas, que vão atirar milhares para o desemprego, assumam tal compromisso. Se o emprego é fundamental, se calhar assumir esse compromisso já hoje não era má ideia. Reparo ainda nas vozes orgulhosas com o projecto de Edite Estrela, votado no Parlamento Europeu, que aumenta o subsídio de maternidade e paternidade. Nada contra claro, mas digam-me lá se os desempregados beneficiam dessa benesse? E as mulheres que são despedidas ainda grávidas ou melhor que classe média agora pobre, vai pensar em ter filhos sem ter como os sustentar. É pedir muito que se defenda o Estado social, começando pelos direitos mais elementares que estão seriamente em risco? Podem deixar-se de hipocrisia, se faz favor!

sábado, outubro 16, 2010

sexta-feira, outubro 15, 2010

Indecência

À medida que o orçamento vai sendo apresentado, vamos vendo as medidas de austeridade detalhadamente e percebemos como todos os limites para a decência e ética vão sendo ultrapassados. Chega-se à indecência de colocar o IVA de um pacote de leite para crianças, ao nível dos mesmos 23% com que é taxado um fato Armani, que o nosso Primeiro-Ministro tanto gosta. E quem fala no leite, fala nos sumos de fruta, no óleo alimentar e na margarina, nas conservas. Neste país beber um sumo ou comprar uma lata de milho é considerado um luxo. Aliás de acordo com as novas tabelas de IRS e o tecto às deduções fiscais, percebemos que o nosso governo acha que quem ganha 500 euros já é rico e não pode deduzir mais de 119 euros em despesas de saúde e educação. Isto vai para além do inqualificável, toda a gente sabe só a despesa em manuais e material escolar excede este valor. E o que acontece aos encargos com rendas ou empréstimos para habitação, já não cabem neste tecto, portanto é como se não existissem? A resposta é ter os filhos a estudar e ter uma casa também é um luxo neste país! O que não é um luxo neste país é acumular reformas milionárias e salários, isso pode-se continuar a fazer, um individuo com a cunha certa e o partido certo, pode perfeitamente trabalhar alguns anos na direcção de uma instituição de renome e obter uma reforma choruda mesmo que tenha 40 anos. Esta realidade, o estado pode sustentar sem problemas: vamos espoliar os pobres, os doentes, os reformados e os desempregados, mas não toquemos nos nossos amigos, até porque um dia vamos deixar o governo e queremos as mesmas benesses.

Acabei de descrever o que espero seja a percepção imediata das pessoas, perante estas medidas de austeridade. Mas é preciso perceber que há tudo um sistema económico internacional que está aqui subjacente e que permite explicar a imposição destas medidas de austeridade. A lógica é que se pretende que o rendimento do trabalho seja forçosamente ser miserável, para que estados e pessoas precisem de contrair empréstimos para sobreviver, numa espiral de divida. É questão para perguntar quem vende está ideia, a resposta é simples são os bancos centrais independentes, todo um sistema financeiro que ninguém elegeu e cujo negócio é a “dívida”. Seja dos Estados, seja dos cidadãos, o Sistema Financeiro lucra com o endividamento, empresta e recolhe esse crédito com juros elevados. Como nem uns nem outros têm capacidade de pagar essa divida, o sistema financeiro tenta absorver o que a economia produz e que devia ser empregue em investimento, emprego e despesas sociais. O nível de endividamento torna-se insustentável, e os governos insistem em injectar mais dinheiro na Banca. A grande consequência é que a Banca faz lobbie para impor este tipo de politicas, portanto temos as agências de rating em cima dos estados periféricos, a baixar as notações, façam os estados o que fizerem. De forma que a austeridade nunca será suficiente, o que significa que isto só terminará numa espécie de neo-feudalismo em que o cidadão comum não terá qualquer regalia pelo seu trabalho. Será que as pessoas acreditam mesmo que este tipo de medidas são provisórias e que não estamos a caminhar a passos largos para a neo-servidão?

segunda-feira, outubro 11, 2010

Irónico não?

Anunciadas as medidas de austeridade, não se discute a recessão que nos vai atingir. Discute-se se o PSD viabiliza ou não estas medidas, como se elas não fossem o que o PSD pretende. O PS refila e trocam-se acusações de irresponsabilidade. Como se não fosse este Centrão que nos deixou no caos financeiro, PS e PSD arruinaram o nosso aparelho produtivo, permitiram abusos nos gastos públicos para satisfazer as suas clientelas e o resultado é o que se vê. A comunicação social descobre agora, um site que existe há anos, que regista as compras públicas e os ajustes directos. Parece que descobriram agora que a administração pública está cheia de gestores incompetentes que não têm qualquer respeito pelo bem público e pelo dinheiro de todos nós. Mas este esbanjamento e má gestão surpreendem alguém?

Chegamos ao ridículo de ver circulares da PSP, aconselhando a redução da iluminação e do consumo de água, quando adquiram 5 milhões de euros de blindados para a cimeira da NATO. Nota-se que é a racionalidade que caracteriza estes plano de austeridade. Muito racional, foi também, a decisão de deixar cair a acumulação de reformas com salários. Porventura a única medida verdadeiramente justa deste PEC, caí por falta de coragem politica em afrontar elites que beneficiam desta acumulação.

O que já não surpreende é a subida dos preços dos combustíveis, aqui a contenção não se aplica, assim como o lucro que a GALP vai retirando dos poços de petróleo, que vão sendo explorados no Brasil. Os sacrifícios não são para todos e isso também não é novidade. Os sacrificados são os pobres e os doentes, no hipocritamente denominado “2010: Ano europeu consagrado à pobreza e à exclusão social”. Irónico, não?