domingo, maio 23, 2010

«O sistema oprime, criando uma aparência de liberdade»



Excerto de uma entrevista a Zeca Afonso em 1984

É fantástica a actualidade destas palavras! A ouvir com atenção...

segunda-feira, maio 17, 2010

Obediência


«A obediência dos povos alimenta a tirania dos governos»

Agostinho da Silva

quinta-feira, maio 13, 2010

Esforço colectivo para quem?

Aí estão elas! As medidas que vão salvar o país! Um esforço colectivo, um sacrifício dividido por todos a pensar na sobrevivência do Euro e da União Europeia. Um esforço que todos devem encarar com alegria, porque não lhes foi retirado o subsídio de Natal. Se calhar até devíamos agradecer a generosidade. O problema é que tudo isto é uma absoluta falsidade. Primeiro não se trata de um esforço colectivo, todos pagam o aumento do IVA, mas os mais pobres e desprotegidos não conseguirão fazer face a esse aumento. O aumento da retenção na fonte no IRS é na mesma percentagem, mas não é igual a necessidade dessa fatia que se corta, a quem ganha o salário mínimo ou a quem ganha 2000 euros. Se as pessoas se derem ao trabalho de fazer as contas, rapidamente vão concluir que estão a perder mais que um salário por ano. Mas a perda de um salário numa só vez, teria um impacto psicológico muito forte, assim as pessoas vão perdendo dinheiro mensalmente de forma menos perceptível. O objectivo é enganar as pessoas, de forma a evitar contestação social. É bom que os cidadãos pensem bem e percebam que estão a ser enganados e se indignem contra a sem vergonha escandalosa que é aumentar o IVA dos bens essenciais. Imaginem o que será para um reforma com 200 euros pagar a sua alimentação com estes aumentos!

Tudo isto é feito contra tudo o que foi prometido e validado em eleições democráticas. O que é que isto diz da democracia? Diz que já estamos a falar de outra coisa, um regime para uma elite e não para a maioria. Sobretudo quando existem medidas alternativas que são rejeitadas, porque afrontam interesses instalados. A banca vai continuar a não pagar o mesmo IRC de qualquer comerciante, as transferências para offshores não são tachadas, os prémios e bónus não foram cancelados, mesmo as mais valias só serão taxadas só pela metade. Também não se toca nas obras públicas e no despesismo público (ajudas de custo, frota automóvel, subsídios de transporte, alojamento etc.). Porque é que não se reduzem salários acima de 2000 euros em 5%, em que vez de se tirar comida aquém não vai suportar o aumento do IVA?

Tudo isto depois da euforia de ontem com os dados do Eurostat que revelavam um crescimento da economia portuguesa, graças ao consumo interno (adivinhem o que vai acontecer ao consumo interno...). Tudo isto quando se estima que a visita do papa custou 78 milhões de euros ao país em 3 dias! E Cavaco Silva ainda diz que devemos pedir ajuda ao Papa para ultrapassar as dificuldades? Teixeira dos Santos diz que os portugueses não são os gregos e não teme contestação social. Retiram-nos parte do rendimento e ainda gozam com a nossa cara? Vamos permitir?

terça-feira, maio 11, 2010

"Pão e Circo" ou será "Papa e Bola"?


O retrato do país nos últimos dias, entre fanatismo futebolístico e fanatismo religioso, revela a incapacidade de todo um povo pensar criticamente. A felicidade surge associada a símbolos, que nenhum efeito prático têm no seu bem-estar, nas suas condições de vida e de trabalho. No entanto, as pessoas são levadas a pensar que um evento que lhes é exterior, tem efectivamente alguma consequência nas suas vidas e sentem-se obrigadas a sentir alegria e a celebrar algo inconsequente. Não percebem que se tratam de manobras de diversão de massas, para que não se apercebam dos direitos que lhes estão a ser retirados e da difícil tarefa de sobrevivência económica que vão enfrentar nos próximos tempos. É uma jogada eficaz de anestesia colectiva, para evitar manifestações de descontentamento ou revolta.

Não é por acaso que o Primeiro-Ministro e o líder da oposição se reúnem hoje, para em breve anunciar a subida do IVA e eventualmente cortes ou mesmo a suspensão do 13º mês, persistindo na exigência de sacrifícios aos mesmos de sempre. Aposto até que o sermão que o Papa irá proferir daqui a pouco, visará a resignação e o espírito de sacrifício dos portugueses, perante a crise (as lições de moral e ética familiar de imposição de estilos de vida lá estarão também). Os mesmos de sempre que se vão calando e vão aceitando, que só saem aos milhares para aclamar um clube de futebol ou um líder religioso, que por eles e pelo seu futuro, fazem rigorosamente nada. Mas pelos seus direitos ou pelos direitos dos seus filhos, que estão seriamente comprometidos não levantam a voz, não criticam, nem se mobilizam. Enquanto existir “pão e circo”, ninguém dirá basta. Será preciso chegar ao ponto, em que o “pão” desaparece da equação, para o povo perceber que não há clube ou religião que garantam os seus direitos e a sua sobrevivência?

terça-feira, maio 04, 2010

Justo?

Parece que estamos tão mal quanto a Grécia. Tal como eu esperava, as agências de rating não se deram por satisfeitas com o PEC e continuam a avaliar negativamente a economia portuguesa. Chegamos ao ponto de uma televisão iniciar uma sondagem, com a pergunta «Dê a sua opinião: estaria disposto a oferecer o seu subsídio de férias para ajudar o País?». Como que a preparar psicologicamente o cidadão para o inevitável, um jornalista demonstra por a+b que cada português deve anualmente cerca de 8 mil euros. Culpabilizando os malandros que não pagam as contas, assegura-se que não há alternativa ao sacrifício. Neste ponto, os portugueses que ganham 200 euros mensais de reforma, devem estar a pensar como devem um valor que nem sequer auferem. Nem é preciso ir tão longe, qualquer cidadão que pague as suas contas com o seu parco salário, também deve estar confuso. Para perceber basta verificar que as contas do jornalista baseiam-se, por estimativa, no salário médio português, 920€. É a média salarial, porque neste país profundamente desigual, há quem ganhe tanto que faça subir este valor. A verdade é que o salário mais comum em Portugal ronda os 500€, mas esse facto teria outro impacto na contabilidade do jornalista e podia passar a imagem errada...

É lamentável que a comunicação social, seja cúmplice numa estratégia de sacrificar os que já de si têm grandes dificuldades, dando como inevitável um esforço que pode ser conseguido de outra forma. Outra forma que nunca é referida e aprofundada nos Média. Porque não se acabam com os prémios (não só os milionários, mas também os dos cargos de gestão intermédia...), restringem despesas públicas (continua a renovar-se a frota automóvel estatal, para já não falar nas grandes obras publicas...)? Aqui ao lado Zapatero eliminou dezenas de altos cargos públicos e institutos estatais, mas não cortou subsídios de desemprego, sacrificando cidadãos já de si, numa situação muito penosa.

Porque é que um bom jornalista, não faz as contas e mostra exemplos concretos? É bom que se perceba quem saí afectado e como, um cidadão que ganhe 600 euros e perca o seu emprego, fica a receber agora 75% desse salário, 450€ e vê-se obrigado a aceitar um emprego que pague mais 45€ desse subsidio... ou seja, de um salário de 600 euros, o melhor que pode esperar é conseguir continuar a pagar as suas contas com o novo salário de 495€. Justo não é? Para o Governo, justo é a banca que faz um milhão por dia, pagar menos imposto que qualquer pequeno empresário, justos são os prémios aos gestores e tudo que podia ser alternativa, mas afecta a elite intocável... aí não se mexe, não seria justo...

domingo, maio 02, 2010

Valores ...



Valores do Séc. XXI por Quino

segunda-feira, abril 26, 2010

Abril?

As minhas ausências têm sido frequentes, porque neste momento, acredito muito pouco que escrever um post tenha qualquer consequência. Passados 36 anos da revolução de Abril, os valores da justiça, da igualdade, da fraternidade parecem ter caído por terra, perante a resignação aparente dos cidadãos. 36 anos depois parece que a revolução foi feita para que uma elite económica receba benefícios e privilégios, enquanto a maioria da população vive angustiada entre o desemprego e um trabalho precário. O governo, cujo compromisso democrático seria zelar pelos interesses dessa maioria, não só não o faz como favorece os que já estão favorecidos.

Dir-me-ão que nada disto é novo. A novidade está na dimensão que atingiu. Nunca vimos tão escandalosas diferenças salariais, os prémios dos gestores públicos, nomeações sem concurso, cortes nas prestações sociais, sobretudo no apoio no desemprego, congelamento de salários (até em situações de empresas que estão a dar lucro e que premeiam os seus directores principescamente), o mercado dos combustíveis em descontrolo com subidas de preço que ameaçam o resto da economia. Sucedem-se os casos de corrupção, que o sistema de justiça não só não castiga como absolve, passando a mensagem que efectivamente compensa. Enfim, a lista infindável e faz com que não se possa falar de igualdade e fraternidade e muito menos de justiça, no país que fez o 25 de Abril.

A questão que se coloca é se as pessoas estão dispostas a voltar a debater-se por estes valores. Até que ponto percebem que existem outras políticas, existem alternativas, vão exigir uma mudança ou não? Ontem assisti a um espectáculo de homenagem a Zeca Afonso, em que um dos artistas tentou incentivar o publico a gritar «A revolução somos nós», o silêncio foi esmagador. O povo que fez o 25 de Abril resignou-se...

sábado, abril 17, 2010

A que Estado queremos chegar?

Um artigo fundamental de Sandra Monteiro, a ler no Le Monde:

«E vamos comemorar o Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social numa Europa que se recusa a olhar para as conexões sistémicas entre as vantagens do seu centro e o desastre das suas periferias e que, em vez disso, procura impor aos governos dos países em dificuldades, com a ajuda de agências de notação, a adopção de programas de austeridade assimétricos e socialmente injustos. Programas que protegem o capital financeiro e os sectores mais responsáveis pela actual crise e, numa ironia macabra, diminuem ou retiram até, justamente aos pobres e excluídos, os mecanismos que ainda subsistem de protecção social.

O caso de Portugal é, a este título, paradigmático. No país com maior desigualdade de rendimentos da União Europeia e com níveis assombrosos de pobreza, e até de pobreza laboral, o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) optou por combater o défice reduzindo cegamente os apoios sociais. O sociólogo Pedro Adão e Silva já classificou essa solução como «ideologicamente errada e politicamente preguiçosa», clarificando a escolha de fundo que estava em causa na elaboração do documento: «garantir a sustentabilidade de direitos ou, tomando o PEC à letra, fazer regressar a rede de mínimos sociais à lógica discricionária do passado» (...)
A «solução preguiçosa» é, de facto, preocupante.No contexto do PEC, e face a um desemprego galopante, essa «preguiça» sinaliza mesmo uma falha, senão mortal, decerto moral: é uma má escolha e reifica uma oposição directa ao contrato social em que as democracias fundaram a legitimidade da representação popular e para cujo funcionamento criaram as instituições democráticas que conhecemos.(...)

A tragédia é conhecida, pois a receita liberal há muito que vem sendo experimentada: as contas públicas acabam por perder as fontes de receitas das empresas que eram lucrativas; o Estado assume parte dos riscos que os privados se recusam a incorporar; a gestão privada contraria qualquer ilusão que pudesse existir de maior eficiência ou qualidade e, em troca, os cidadãos vêem-se confrontados com serviços mais caros e, frequentemente, de pior qualidade; por fim, fora de qualquer lógica de inclusão social e coesão territorial, que só as políticas públicas podem garantir, são progressivamente eliminados da actividade privada os segmentos não lucrativos que o orçamento de Estado não cubra.

O estado a que chegámos é, de facto, uma encruzilhada. Convoca a comunidade política que somos a regressar à discussão das finalidades que nos unem e a fazer a escolha, que não é nova, entre lógicas públicas de defesa de interesses comuns, que se apropriem do Estado, mas sem o considerarem a única esfera da organização e da participação dos cidadãos, e lógicas de interesses privados, que nos atomizam cada vez mais em estratégias individuais de competição, e em resultado das quais os que se saem sempre bem são os que já partiram com múltiplas vantagens para a contenda (mesmo que as narrativas se apressem a glorificar a excepção, o self-made man).

Os portugueses que foram obrigados pela crise a cancelar seguros de saúde, por exemplo, e que agora lêem nos jornais as desvantagens dos novos produtos alternativos que o mercado lhes propõe («cartões de desconto»), não devem estar longe de se juntar, entre outros, aos desiludidos dos fundos de pensões, ou aos trabalhadores precários atirados para o desemprego, numa mais clara compreensão da importância de defender a sustentabilidade dos serviços públicos e das prestações sociais. Raras vezes chegamos a encruzilhadas tão decisivas… A que estado queremos chegar?»

domingo, abril 11, 2010

Um concerto para recordar...



David Fonseca no Coliseu
9 de Abril de 2010

«Estiveram lá as suas canções: “A cry for love”, com batida resgatada à imortal “Be my baby” da Ronettes, que surge a início, “There’s nothing wrong with us” a pedir dança sobre teclados 80s (década omnipresente no concerto) ou a “Superstars” de assobio famoso, essa que chegou depois de David Fonseca aceder ao pedido do público (coisa futebolística de olés e “salta David, e salta David”) e ensaiar uma pose devidamente cinematográfica. Ouviu-se “Gelado de verão”, o esquisso de António Variações a que deu corpo com os Humanos, ou a euforia rock de “The 80s”, porventura a sua melhor canção. Mas, para além de tudo isso, esteve lá representado todo um imaginário, numa excessiva nostalgia de referências: o início com Pet Shop Boys ou Queen, imediatamente antes da entrada em palco, Cindy Lauper na versão de “Girls just wanna have fun” ou o gozo de transformar os acordes de “Borrow”, essa mesmo, dos Silence 4, na inenarrável “The roof is on fire”, dos não menos inenarráveis Bloodhound Gang.»

Ler mais aqui. E acreditem que o crítico não exagerou, foi um concerto brutal...


terça-feira, abril 06, 2010

Premiar uns, retirar cuidados de saúde a outros

Uma semana e meia de ausência, levam-me a escrever um daqueles textos abrangentes, sobre uma semana marcada por dois momentos bastante reveladores do lugar a que o Estado relegou o cidadão comum. Estou a falar do encerramento do centro de saúde de Valença, que é apenas um exemplo do que tem sido feito para retirar serviços e cuidados de saúde fundamentais aos cidadãos, em nome de critérios economicistas. O único garante do acesso público à saúde, demite-se da sua função. Cada vez mais é exigido ao cidadão que contribua com sacrifícios e aumento de impostos, mas depois não existe a contrapartida do Estado. E com isto, não critico a existência do Estado, mas sim a forma como está a ser gerido e as bases em que assenta. Não se pode assegurar um serviço fundamental de cuidados de saúde, porque não é rentável, mas pode-se por exemplo canalizar uma verba idêntica ou superior para o prémio de um gestor público.

Não é questionado um prémio milionário a um gestor público de uma empresa estatal que detém o monopólio do mercado, mas já existe outro rigor para eliminar um centro de saúde. O que me leva ao outro momento da semana, que é a divulgação do valor do premio anual de António Mexia. A justificação é a concretização de objectivos. Ora deve ser muito difícil gerir com sucesso uma empresa estatal como a EDP, que domina sem concorrência o mercado e pratica os preços mais elevados da Europa. Para já não falar no facto de ser questionável, que um gestor já pago mensalmente para executar uma gestão eficaz, seja ainda contemplado com um prémio por fazer o que lhe compete. Paga o Estado algum prémio ao varredor de rua que executa a sua profissão com zelo e competência, cumprindo os seus objectivos?

Como se não fosse suficiente a fraca fundamentação do prémio, ainda tivemos que assistir a uma jogada de propaganda patética com o programa "InovCity" em Évora, numa tentativa de mostrar serviço e desviar as atenções do essencial. E o essencial é gestão do bem público com critérios economicistas e não a pensar no interesse geral. A maior das ironias é que António Mexia, fez parte do grupo "Compromisso Portugal", que exigia a saída do Estado do capital de empresas como a EDP, afinal o garante do prémio chorudo que recebe agora. Tudo isto torna muito díficil perceber porque se encerram serviços públicos de um lado e se premeiam gestores ex-ministros, sentados em monopólios, no outro...

terça-feira, março 23, 2010

Alternativas à extorsão colectiva

Não chega criticar o PEC, é preciso que as pessoas percebam que existem outras medidas para cortar a despesa e aumentar a receita do Estado. A que mais salta a vista, é o aumento de IRC à Banca, algo que nunca foi feito. Não é aceitável que qualquer comerciante pague 27% de IRC e a Banca pague só 12,8%, quando em ano de recessão tiveram 5 milhões de euros de lucro. Não é aceitável que qualquer comerciante pague 27% de IRC e a Banca pague só 12,8%, quando em ano de recessão tiveram 5 milhões de euros de lucro. Isto não acontece em mais nenhum país da Europa, nem nos EUA. Com a agravante de um estudo recente da DECO, revelar que os bancos portugueses cobram as taxas e comissões mais elevadas da Europa. Justo? No entanto, deste domínio intocável, o PEC não fala. Aliás não há qualquer alteração no IRC, o que se percebe para as pequenas e médias empresas, mas não se percebe para as grandes empresas que têm apresentado altas taxas de lucro.

O que também salta à vista, como intocável, são os prémios dos gestores públicos, que eu já referi no post anterior. E o que dizer do dinheiro que o Estado gasta em consultorias jurídicas e assessorias externas, quando é o maior empregador de juristas? Porque não se faz uma renegociação dos valores e dos prazos dos contratos das contrapartidas militares, previstos na lei de programação militar e a renegociação das parceiras público-privadas, factores largamente prejudiciais em termos de lucro? Continuamos com parcerias público-privadas que privatizam lucros e nacionalizam prejuízos, regalias abusivas a gestores públicos, desde aquisições irreflectidas com concursos por ajuste directo pouco transparentes, frotas de carros topo de gama... Nem aqui, nem nas grandes obras públicas existem cortes. Porque é que em vez de obras megalómanas, não se investe na reabilitação urbana, que para além de melhorar a imagem turística das cidades, impulsionava o sector da construção civil. É o que Zapatero está a promover em Espanha (comparação parva, ele é mesmo socialista...). Não nos digam que não há alternativas, pero que las hay, hay...

domingo, março 21, 2010

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.


In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.


Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.


It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.


William Ernest Henley


quarta-feira, março 17, 2010

PEC: Plano de Extorsão Colectiva?

Depois do orçamento de Estado, das medidas tomadas na Grécia e da campanha das agências de rating, confesso que não esperava nada de bom desde plano de estabilidade e crescimento. Já sabemos quem tem que sofrer, quando se quer descer o défice. Ainda assim, conseguiu ser pior do que eu poderia imaginar. Estamos a falar de uma diminuição de rendimentos substancial nas classes média e baixa. Comecemos pelos cortes nas deduções fiscais com educação e saúde, que vão impedir que as famílias recuperem parte do imposto retido. Num exemplo concreto, um casal com salário mensal de 500 euros, poderia recuperar no IRS anual o equivalente a um mês de salário. Isso vai deixar de acontecer, estamos a falar de menos um salário no rendimento familiar. Por outro lado, os salários estão congelados, as taxas de juros de empréstimo à habitação deverão subir em media 100 euros, os preços dos combustíveis estão novamente em escalada e os restantes produtos deverão seguir pelo mesmo caminho.

Para a Banca e para as grandes empresas, não há aumento de impostos, mesmo sabendo dos lucros milionários obtidos o ano passado. Gestores como o Paulo Penedos e o Rui Pedro Soares vão continuar a receber prémios de 250 mil euros, recompensa de condutas ilegais e eticamente condenáveis. Há domínios intocáveis. E não é a tributação de mais-valias em bolsa e o novo escalão de IRS de 45%, cujo alcance é diminuto, que trazem alguma justiça à distribuição dos sacrifícios pela sociedade.

Não menos preocupantes, são as privatizações de empresas públicas, pagas por todos nós, mas que agora passam a ser de quem puder pagar. A mais escandalosa é a privatização dos CTT... quem poderá garantir serviços, cujo lucro não é visível, quem poderá garantir que um pensionista em Bragança continuará a receber a sua correspondência e a pagar o mesmo que um lisboeta? Isto sem falar da lógica absurda que se mantém, privatizar lucros e manter publico o que dá prejuízo...

Guardei o mais grave para último, porque é da maior insensibilidade social e será dramático para quem ficar desempregado, estiver no desemprego ou numa situação em que necessite de recorrer ao rendimento social de inserção. Precisamente as camadas mais desprotegidas da sociedade, que podem até ser esforçadas e competentes, mas que num contexto de crise económica, foram atiradas para o desemprego. Será reduzido o diferencial entre o ultimo salário e o subsídio. Serão apertadas as regras para aceitação de novo trabalho, mesmo que não seja compensatório. Foi também introduzido um tecto de despesa nas prestações sociais, que quer dizer que quando ele estiver esgotado, quem receber, por exemplo, o subsídio social de desemprego ou o complemento solidário para idosos, apesar de ter direito à prestação já não a receberá.

Percebem agora a satisfação das agências de Rating, do Banco Central europeu, da OCDE e do FMI? É que alguém estudou bem a receita de politicas neoliberais que colocam o lucro acima das pessoas e fez um excelente trabalho de casa. Só é lamentável que a receita seguida foi a que nos trouxe a crise e será a que nos vai mergulhar profundamente nela...

domingo, março 14, 2010

Whatever works


«Os ensinamentos básicos de Jesus são maravilhosos. Também as intenções originais de Karl Marx. Está bem? Hei, o que é que podia ser mau? Todos deviam partilhar igualmente. Fazer pelos outros. Democracia. Governo pelo povo. Tudo grandes ideias. São todas grandes ideias, mas têm todas uma falha fatal.
– Que é?
– Que é estarem todas baseadas na noção falaciosa de que as pessoas são fundamentalmente decentes. Dêem-lhes a oportunidade de fazerem o bem e elas aproveitá-la-ão. Não são estúpidos, egoístas, gananciosos, covardes e insensatos vermes. Fazem o melhor que podem. Só digo que as pessoas tornam a vida muito pior do que tem que ser... e, acreditem, é um pesadelo sem a ajuda delas. Mas, no conjunto, lamento dizer, somos uma espécie falhada.

(...) Aviso-vos já, está bem? Não sou uma pessoa afável. O charme nunca foi o meu forte. E, só para que saibam, este não é o filme mais agradável do ano. Por isso, se é um daqueles idiotas que precisa de se sentir bem, vá arranjar uma massagem aos pés.
Que raio é que tudo isto significa? Nada. Zero. Nicles.
Nada dá em nada, no entanto, não há falta de idiotas a balbuciar. Eu não. Eu tenho uma visão. Estou a discuti-la. (...) Dos seus amigos, aos seus colegas de trabalho, aos seus jornais, à televisão.. Todos gostam de falar, cheios de desinformação. Moral, ciência, religião, política, desporto, amor. A sua pasta, os seus filhos, saúde. Cristo.
Se tiver que comer nove doses de fruta e legumes por dia para viver, não quero viver. Odeio as malditas frutas e legumes. E o seu omega-3 e o exercício e o cardiograma e a mamografia e a ecografia pélvica... e, oh, meu Deus, a colonescopia! E com tudo isto, ainda chega o dia em que nos metem num caixote e chega a vez da próxima geração de idiotas que também lhe dirão tudo sobre a vida e lhe definirão o que é adequado.

O meu pai suicidou-se porque o jornal da manhã o deprimia. E podem culpá-lo? Com o horror e corrupção e ignorância e pobreza, e genocídio e SIDA e o aquecimento global e terrorismo e os idiotas dos valores familiares e os idiotas das armas! "O horror," disse o Kurtz no final de "Coração de Escuridão". "O horror."O felizardo do Kurtz não recebia o Times lá na selva, senão ele ia ver o que era horror. Mas o que é que fazemos? Lemos sobre um massacre qualquer no Darfur ou sobre um autocarro escolar que explodiu e dizemos "Oh, meu Deus, que horror!"E depois voltamos a página e acabamos de comer os ovos das galinhas caseiras. Porque, o que é que podemos fazer? É esmagador.

Eu próprio já me tentei suicidar. Obviamente, não resultou. Mas porque é que querem, sequer ouvir falar disto tudo? Meu Deus, vocês têm os vossos próprios problemas. Estou certo que estão
todos obcecados com algumas tristes pequenas esperanças e sonhos. As vossas previsivelmente insatisfatórias vidas amorosas. Os vossos negócios falhados. "Oh, se eu tivesse comprado aquela acção!"."Se eu tivesse comprado aquela casa, há anos!". "Se eu tivesse conquistado aquela mulher." Se isto, se aquilo. Sabem que mais? Não me chateiem com os vossos "podias" e "devias".

segunda-feira, março 08, 2010

Alegria no trabalho

Foi com inquietação que li a entrevista de Christophe Dejours, Psiquiatra e Psicanalista, especialista em doenças mentais ligadas ao trabalho. Fenómenos como a avaliação individual do desempenho, a exigência de “qualidade total” e o outsourcing têm provocado situações de precaridade laboral, injustiça e assédio. Esta realidade origina uma atmosfera de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, à depressão e em cada vez mais casos, o suicídio. A entrevista ajuda a perceber muita coisa e infelizmente quem trabalha, reconhece facilmente as técnicas de assédio, manipulação e medo que são analisadas por Christophe Dejours. Ficam alguns excertos que têm tanto de verdadeiro como de preocupante:

O que é que mudou nas empresas?

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”
Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…

Mas o assédio no trabalho é novo?

Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco. Aí é que se torna difícil sair do poço, sobretudo para os que gostam do seu trabalho, para os mais envolvidos profissionalmente. Muitas vezes, a empresa pediu-lhes sacrifícios importantes, em termos de sobrecarga de trabalho, de ritmo de trabalho, de objectivos a atingir. E até lhes pode ter pedido (o que é algo de relativamente novo) para fazerem coisas que vão contra a sua ética de trabalho, que moralmente desaprovam.

Qual é o perfil das pessoas que são alvo de assédio?

São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são frequentemente pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam-se a fazê-las. Por exemplo, recusam-se a assinar um balanço contabilista manipulado. E em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas não dizem nada, já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e algo ingénuo continua a falar. Não devia ter insistido. E como falou à frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos quão impensável é dizer abertamente coisas que não devem aparecer nos relatórios de actividade.
Com um único assédio, consegue-se dominar o colectivo de trabalho todo. Por isso, é importante, ao contrário do que se diz, que o assédio seja bem visível para todos. Há técnicas que são ensinadas, que fazem parte da formação em matéria de assédio, com psicólogos a fazer essa formação.

Uma formação para o assédio?

Exactamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato.

Está a descrever um cenário totalmente nazi...

Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.

É a isto que se chega numa sociedade que premeia o lucro, sem ter em conta as pessoas. É a completa desumanidade nas relações laborais e sociais. São entrevistas como esta que me mostram que eu não estou enganada, quando chamo a atenção para este tipo de injustiça. Mesmo que me repita, vou continuar a escrever sobre o que acontece quando o lucro vem antes das pessoas.

domingo, março 07, 2010

And the Oscar goes to...

Em dia de Óscares porque não fazer umas apostas? Muito inovador e nada prevísivel... ainda assim, faço à mesma... Embora o Avatar tenha a história mais básica do cinema, deverá ser o vencedor da noite, tudo porque os efeitos especiais enchem as salas. Enfim... As minhas preferências estão a bold e a aposta a vermelho, cá vai:

Melhor Filme
Avatar
The Blind Side
District 9
An Education
The Hurt Locker
Sacanas Sem Lei
Precious
A Serious Man
Up
Nas Nuvens

Actor Principal
Jeff Bridges - Crazy Heart
George Clooney - Nas Nuvens
Colin Firth - A Single Man
Morgan Freeman - Invictus
Jeremy Renner - The Hurt Locker

Actor Secundário
Matt Damon - Invictus
Woody Harrelson - The Messenger
Christopher Plummer - The Last Station
Stanley Tucci - The Lovely Bones
Christoph Waltz - Sacanas Sem Lei

Actriz Principal
Sandra Bullock - The Blind Side
Helen Mirren - The Last Station
Carey Mulligan - An Education
Gabourey Sidibe - Precious
Meryl Streep - Julie & Julia

Actriz Secundária
Penélope Cruz - Nine
Vera Farmiga - Nas Nuvens
Maggie Gyllenhaal - Crazy Heart
Anna Kendrick - Nas Nuvens
Mo'Nique - Precious

Filme de Animação
Coraline
Fantastic Mr. Fox
A Princesa e o Sapo
The Secret of Kells
Up

Melhor Realizador
James Cameron - Avatar
Kathryn Bigelow - The Hurt Locker
Quentin Tarantino - Sacanas Sem Lei
Lee Daniels - Precious
Jason Reitman - Nas Nuvens

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El Secreto de Sus Ojos - Argentina
The Milk of Sorrow - Peru
Un Prophète - França
The White Ribbon / O Laço Branco - Alemanha

Melhor Argumento Adaptado
District 9
An Education
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Precious
Nas Nuvens

Melhor Argumento Original
The Hurt Locker
Sacanas Sem Lei
The Messenger
A Serious Man
Up

quinta-feira, março 04, 2010

O que não nos contam da Grécia

O que se passa na Grécia é extremamente preocupante, o primeiro-ministro socialista Georges Papandreou anunciou na terça-feira, num comunicado dramático à nação transmitido pela televisão, medidas futuras de uma austeridade sem precedentes, incluindo um aumento imediato do imposto sobre o combustível, o aumento da idade da reforma e cortes na remuneração dos funcionários públicos que representarão uma diminuição em 10% do salário para a maioria dos funcionários do estado e de 40% para os professores universitários. Será reduzido em 30% o salário correspondente ao 13.º mês, em 60% o subsídio de férias e o IVA será aumentado para 21%, uma subida repentina de 2 pontos percentuais.

São medidas gravíssimas que prejudicam o cidadão comum e comprometem a justiça social. O esforço é sempre exigido aos mesmos, os já sacrificados com o desemprego, a estagnação da indústria e do comércio. Estas medidas só irão aumentar o desemprego, a pobreza, fazer diminuir as receitas fiscais e tornar o país refém da especulação dos mercados financeiros. Veja-se como a situação piorou depois da redução do rating de crédito grego por três agências privadas de avaliação de riscos, e a consequente especulação nos mercados em torno da dívida pública grega, destinada a financiar o défice, o que levou a um aumento de 4% acima dos valores de base das taxas de juro. Joga-se com a bancarrota de um país, foi a isto que chegamos. Já se levantam vozes a sugerir a venda de patrimonio histórico e das ilhas gregas!!

O que ninguém nos conta da Grécia, é todo o historial de corrupção, evasão fiscal, clientelismo no sector público, toda uma elite que tirou benefícios públicos em proveito próprio e que fez aumentar a divida do estado. Familiar, não? Mas combater este problema, não é solução que ninguém aponte. A própria UE que deveria ter um compromisso com a justiça social e a democracia, pressiona a Grécia no sentido de tomar medidas que prejudicam trabalhadores assalariados, grupos de baixos rendimentos, agricultores de subsistência e desempregados... os mesmos de sempre. Insiste-se num modelo económico neoliberal assente num controlo do défice, nas privatizações e na redução do peso do Estado, que já demonstrou estar esgotado. A agravar a situação é que estas medidas vêem de um governo socialista, eleito por defender precisamente o oposto, o que coloca em causa a confiança nas instituições e na própria democracia. A persistência de um modelo esgotado, não só provocará uma crise social grave como politica.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Relações que não devem ser feitas...

Desde sábado, que as imagens que nos chegam da Madeira nos têm chocado e provocado a nossa consternação e solidariedade. Mais uma catástrofe natural, consequência das alterações climáticas, facto a que ninguém parece ligar desde a Cimeira de Copenhaga. Cada vez é mais óbvio que se trata de uma relação, que não se pretende que as pessoas façam. No caso da Madeira, também se tem notado uma preocupação em evitar temas como o ordenamento do território e a existência de radares meteorológicos. Claro que não seria boa ideia que os cidadãos pensassem que os interesses económicos estão em primeiro lugar, colocando em causa as suas vidas e segurança.

Como não podia deixar de ser, Alberto João Jardim, tudo tem feito para que esta relação não seja perceptível, chegando a insultar os especialistas que se atreveram a apontar falhas no ordenamento do território e a inexistência de um radar meteorológico. Qualquer inquérito judicial é um ultraje! Qualquer leigo percebe que são factores menores. O importante mesmo é garantir que o turismo não seja afectado, que não se dramatize e se prejudique a imagem internacional da região. Se isto não é insultuoso para as vítimas e seus familiares e para as pessoas que perderam tudo, então não sei o que é. Nem as catástrofes mudam as pessoas... mas aparentemente mudam as relações entre as pessoas, o Sr. Silva afinal é um tipo porreiro e aquele fascista do continente é o melhor dos governantes. Hipocrisias à parte, espero que os governantes cumpram o que é da responsabilidade do Estado e se recordem do que é o bem público. Há um grande trabalho de apoio às populações e à reconstrução de infra-estruturas que terá de ser feito, sendo que só será eficaz se as instituições funcionarem e se organizarem.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Actos dispensáveis

Que este país tem profundos problemas estruturais, sistematicamente deixados por resolver por sucessivos governos e que culminaram numa grave crise económica e social, já todos sabemos e lamentamos. O que se dispensava era uma serie de encenações dramáticas, ameaças veladas, escândalos, fugas ao segredo de justiça e tentativas de manipulação da comunicação social. Já não bastava as agências de rating a embelezarem a imagem do país, colocando Portugal, Itália e Grécia num simpático acrónimo PIGS, precisam também os nossos políticos de demonstrar imbecilidade e desonestidade grosseira? Parece que todos se juntaram e estão divertidíssimos de pá na mão a enterrar o país. Enquanto se divertem, os portugueses tentam sobreviver no desemprego ou com um salário precário, vendo a vida cada vez mais difícil e os seus problemas longe de ser resolvidos. Ao mesmo tempo, outros apresentam os lucros magníficos que obtiveram no ano da recessão. A comunicação social diverte-se com escândalos e escutas, vitimiza-se, omitindo os problemas reais de uma crise social profunda. Esquece-se a comunicação social de referir, que grupos económicos a sustentam e alimentam...

Todos dispensávamos um Primeiro-Ministro que se preocupa mais com a imagem que a comunicação social passa, do que em resolver os problemas do país. Era preferível que explicasse aos senhores do FMI e das Agências de rating como se podem congelar salários já de si miseráveis ou como se vive com uma reforma de 200 euros. É mais interessante jogar outros jogos, colocando em causa a imagem da democracia. Preferíamos não ver, à custa da brincadeira, levantarem-se movimentos a defender a liberdade de expressão encabeçados por monárquicos e radicais de direita. Não precisávamos disto, já temos problemas suficientes.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Nothing's gonna change my world



"Across the universe"
The Beatles

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Orçamento de Estado e os sacrificados do costume

Ontem foi entregue na Assembleia da República, o Orçamento de Estado para 2010. Eram 22:30 e houve mais uma vez um substancial atraso, mas como não estamos a falar do cidadão-trabalhador comum, não houve qualquer problema. Também não me consta que o Ministro e o staff tenham que ir buscar os filhos à creche, dar-lhes o jantar e por aí fora. Mas enfim, o meu post não é sobre igualdade de estatuto ou falta dela. É mesmo sobre o orçamento de estado e a distribuição desigual de sacrifícios pela sociedade. Lá por ser hábito, não quer dizer que seja correcto ou que não existam alternativas.

Em vez de se sacrificarem sempre os mesmos, podia-se exigir mais de sectores privilegiados da sociedade. Não é aceitável que qualquer comerciante pague 27% de IRC e a Banca pague só 12,8%, quando em ano de recessão tiveram 5 milhões de euros de lucro. E o que dizer do mercado bolsista? Em ano de recessão e ao contrário do que aconteceu noutros países, a Bolsa portuguesa teve uma actividade lucrativa. No entanto, as mais-valias adquiridas através destas transacções, não pagam qualquer imposto, ao contrário do que acontece noutros países europeus e nos EUA. Portanto não nos digam que isto é uma irresponsabilidade da esquerda radical, existem de facto alternativas.

Porque é que a despesa para além da massa salarial e da segurança social, não é repensada? Continuamos com regalias abusivas a gestores públicos, desde aquisições irreflectidas com concursos por ajuste directo pouco transparentes, frotas de carros topo de gama, parcerias público-privadas que privatizam lucros e nacionalizam prejuízos... Os exemplos podiam continuar. Pelo menos a verba gasta em salários aumenta a receita em IRS e acaba por ser injectada na economia de novo, estimulando o consumo e o IVA. Não digo um aumento generalizado, porque existem de facto escalões salariais elevados, mas os salários até 1500 euros deviam e podiam sofrer aumentos.

O que é certo é que, ano após ano, com orçamentos PS ou PSD, as injustiças se repetem. As receitas do Estado Português assentam nos impostos pagos pelos trabalhadores por conta de outrem, enquanto outros sectores se mantêm intocáveis. Talvez não seja alheio a tudo isto, o facto de vários ex-ministros acabarem como dirigentes de topo da Banca e de outras grandes empresas. Para as grandes obras públicas também não existem cortes, não será porque cargos de topo na Brisa e outras que tais, estão à vista no futuro? Não é esta escandalosa cumplicidade, que mina a nossa democracia e qualquer tentativa de acção em prol do bem público?

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Ética para a Internet?


São muitos os casos de pessoas acusadas judicialmente, pelo simples facto de expressarem uma opinião crítica na Internet, acerca de uma entidade privada ou pública. Um blogger fez uma referência crítica ao Primeiro-Ministro e acabou acusado judicialmente. Aquando do incidente terrorista no avião para Detroit, alguém proferiu um tweet sarcástico sobre o tema e acabou na prisão. Agora é um grupo de pilotos da TAP, que terá manifestado opiniões ofensivas para a empresa através do Facebook. Em blogs, no twitter e agora no Facebook, até que ponto é legitimo que a expressão de uma opinião pessoal seja controlada, vigiada e em ultima instancia eliminada? Porque é que uma crítica fundamentada ou uma manifestação de descontentamento, passa a ser considerada difamação/ofensa?

Imaginemos que cada cidadão utilizador de Internet, resolve publicar online um episodio em que foi incorrectamente tratado numa determinada instituição. Que impacto teria essa acção? Não seria um impacto menor, certamente. Há que dissuadir este tipo de iniciativa, antes que o cidadão comum perceba o seu potencial poder. O que se pretende é inibir o espírito crítico e o inconformismo, tentando dissuadir os cidadãos de usarem a rede para manifestar a sua opinião.

O medo de incorrer num processo judicial dispendioso, o receio de perder o emprego ou sofrer represálias socioeconómicas, são fortes elementos dissuasores. Comecemos por criar cursos de formação em ética para o Facebook, regras de conduta empresarial que dificilmente um trabalhador que quer manter o emprego, pode recusar. Assim se controla, assim se manipula, assim se disciplina no séc. XXI.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Inadaptado

«Terei uma única ideia original na cabeça?
Na careca cabeça?
Talvez se fosse mais feliz, o meu cabelo não caísse.
A vida é curta, tenho de aproveitá-la ao máximo.
Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.
Sou uma frase-feita ambulante...
O médico vai mesmo ter de me observar a perna,
há nela um caroço qualquer.
O dentista voltou a ligar, já lá devia ter ido.
Se não adiasse coisas seria feliz,
mas passo a vida de cu sentado.
Se o meu cu fosse menor era mais feliz,
não tinha de usar fraldas da camisa para fora.
Como se enganasse alguém...
Devias voltar ao jogging, bucha,
correr uns quilómetros por dia.
Correr a sério, desta vez.
Ou fazer alpinismo.
Tenho de mudar mesmo de vida.
Mas como? Tenho de me apaixonar,
de arranjar uma namorada.



Tenho de ler mais, de me cultivar.
E se aprendesse russo?
Ou um instrumento?
Podia aprender chinês,
Seria o guionista que fala chinês
e toca oboé. Ia ser giro.
Devia usar o cabelo curto
e parar de fingir a mim e a todos
que tenho montes de cabelo.
É tão patético...
Devo ser verdadeiro, confiante,
Não é isso que atrai as mulheres?
Os homens não têm de ser bonitos.
Hoje-em-dia isso não é verdade,
Agora há quase tanta pressão
sobre nós como sobre elas.
Por que sinto ter de pedir
desculpas por existir?
Talvez o meu problema seja
a química errada no meu cérebro,
todos os meus problemas e ânsias
serem devidos a um desequilíbrio
químico ou dissociação de sinapses.
Tenho de consultar um médico...
Mas continuaria a ser feio,
Quanto a isso, nada a fazer.»

"Adaptation" 2002

sábado, janeiro 16, 2010

Haiti:Tentar compreender a tragédia

A tragédia que se abateu sobre o Haiti, deixou-nos consternados e as imagens que nos chegam diariamente são dramáticas. Mas há mais a dizer sobre a situação do Haiti. Se um sismo é impossível de prever e de impedir (se bem que nunca houve um empenho em financiar uma investigação cientifica profunda sobre o assunto, há domínios mais lucrativos onde investir suponho... ), o mesmo não se pode dizer da capacidade do Haiti em resistir à catástrofe. Se tivesse ajuda na devida altura, este país estaria hoje em melhores condições de lidar com a destruição, não deixaria de ser uma tragédia, mas não teria estas proporções assustadoras.

O Haiti é um país extremamente pobre, sacudido por uma grande instabilidade politica, ditaduras militares, golpes e contra-golpes o que gera violência, mas também a ausência das mais elementares formas de organização económica e social. Não há sistema agrícola, a saúde e a educação são muito débeis. a única fonte de rendimento é a floresta, que tem sofrido uma devastação tal, que provocou erosão dos solos e cheias destrutivas. Apesar da presença da ONU no território desde 1994, nunca houve ajuda económica que permitisse resolver os graves problemas do Haiti:

O pretexto da crise politica levou os EUA e a União Europeia a bloquearem a verba destinada à ajuda económica, impedindo o Haiti de contrair empréstimos junto de outros bancos. E mais grave, está a ser cobrado ao país juros e comissões de um dinheiro que nunca recebeu, aumentando a divida haitiana. Como em qualquer situação de embargo, quem sofre são as populações. Uma catástrofe desta dimensão num país tão débil, redundou em tragédia. Vemos agora, os países que no passado podiam ter resolvido os problemas existentes, mobilizarem uma ajuda insuficiente e tardia. Agora a grande questão é, até que ponto esta ajuda não serve para endividar ainda mais o Haiti e colocá-lo à mercê de politicas que só beneficiar as grandes corporações internacionais.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Bem-vindos a 2010

Começamos 2010 com a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, na Assembleia da República, o que é sem duvida um enorme passo na igualdade de direitos. Ao menos que no acesso ao casamento, uns não sejam mais iguais que outros, já que outras discriminações socioeconómicas se mantêm e se aprofundam. A percentagem de desempregados bate recordes, sem que um plano sério e rigoroso de criação de emprego seja colocado em prática. Com tantos desempregados sem qualquer apoio social, não se compreende porque existe dinheiro para financiar grandes obras públicas e não para estender o acesso ao subsídio de desemprego. São tantas as famílias afectadas, que se antevê uma grave crise social.

2010 também trouxe ao hemisfério norte uma vaga de frio como há muito não se via, que já provocou milhares de euros em prejuízos. Será um alerta para não brincarmos com as alterações climáticas? Ou será mais uma daquelas coisas da Natureza que não se resolve com cimeiras e cortes nas emissões de CO2? De qualquer forma, é o cidadão comum que sofre as consequências e isso não muda com as décadas...

Em matéria de direitos humanos, também começamos da melhor forma. Na Itália de Berlusconi, centenas de imigrantes foram perseguidos, em violentos confrontos raciais dos quais resultaram vários feridos. Na cidade de Coccaglio, teve lugar uma operação chamada “Natal Branco” que tinha como objectivo a busca casa a casa de imigrantes ilegais, até dia 25 de Dezembro. Explorados, perseguidos e agredidos na Europa da Carta dos direitos humanos, fantástico? Claro que tudo isto é apenas o culminar da politica xenófoba do inarrável Berlusconi, perante a passividade da EU e que dá aso a este tipo de atropelos aos direitos humanos.

Entramos em 2010 com o pé direito, sem dúvida!

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Um Natal às escuras que não foi culpa de ninguém

O Natal de 2009 foi passado sem água, nem electricidade por largas centenas de famílias, o que deve ser uma maravilhosa experiencia de regresso ao inicio do sec. XX. Tudo por culpa desse sujeito de costas largas chamado “catástrofe natural”, mais concretamente um ciclone tropical, fenómeno meteorológico naturalíssimo e habitual no nosso país, historicamente documentado. A culpa não foi certamente das alterações climáticas provocadas por emissões excessivas de CO2 e aquecimento global, que gerações de políticos incompetentes ignoram, em hilariantes e ridículas cimeiras, como a de Copenhaga... Diga-se também que os próprios cidadãos que levam com as catástrofes naturais, dão tanta importância a esta realidade como os políticos incompetentes que elegeram. Sendo que os primeiros se podem queixar da desinformação, enquanto que os segundos se limitam a fazer o que sempre fizeram, que é assegurar os interesses dos grandes grupos económicos, em detrimento do cidadão comum.

Mas voltando aos culpados ou melhor aos inocentes, quem também não teve culpa foi a EDP cujos responsáveis já descartaram qualquer responsabilidade, passando a bola ao sujeito de costas largas chamado “catástrofe natural”. Seria pedir muito que parte dos lucros milionários da EDP fossem canalizados para a manutenção da rede eléctrica e para o reforço das estruturas existentes, ou até para um impensável plano de emergência em caso de danificação da rede eléctrica. Era pedir muito claro, a EDP precisa de capital para investir nos EUA, não vai agora preocupar-se com um serviço que tem por compromisso prestar aos clientes e que para mais é essencial. Que raio de ideia achar que os clientes/cidadãos vêm antes do lucro…É que a manutenção e renovação da rede eléctrica ainda custa dinheiro, assim como a contratação de mais técnicos (é mais rápido e eficiente vir uma equipa técnica do Minho para Torres Vedras…). Há que ser compreensivo, até era Natal... Ninguém poderia prever que anos e anos de medidas ambientais adiadas, tivessem consequências no clima, não é? E o lucro faz tanta falta…

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Feliz Natal!

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.




Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Capitalismo: Uma história de amor

Michael Moore voltou a fazer um excelente filme, "Capitalism: a love story" que recomendo vivamente. É analisado todo o sistema capitalista, o que ele representa e quais são as consequências da orientação para o lucro que estão na sua essência. O realizador começa logo com um excerto de um documentário sobre a Roma Antiga, as semelhanças são mais que muitas. Pão e circo, corrupção e manipulação da Lei, tudo bastante actual. Daí passamos aos dias de hoje, afinal o que acontece num sistema em que prevalece a orientação para o lucro? Temos pessoas sem trabalho, sem casa, com histórias de vida tocantes e verdadeiras apenas porque o que estava em causa era o lucro, de uma determinada instituição bancária.

A dura realidade das expropriações e das execuções de hipotecas, de alguma maneira já eram conhecidas. Mas o capitalismo tem facetas mais arrepiantes. São denunciadas duas situações que eu desconhecia e que de facto, são vergonhosas e mostram o culminar de um sistema deixado à rédea solta, onde o lucro está acima das pessoas. Numa pequena cidade dos EUA, uma casa de correcção juvenil estatal foi encerrada e substituída por uma instituição privada com o mesmo objectivo. Estranhamente muitos jovens começaram a ser condenados a uma reabilitação na dita instituição, pelos motivos mais insignificantes, como criticar o director da escola no myspace ou por discutir com um familiar. A reclusão era prolongada sem que houvesse ordem judicial. O estranhamente desaparece da equação, quando se descobre que os dois juízes encarregues destes casos, recebiam avultadas quantias para ajudar a empresa privada a ser lucrativa. Centenas de jovens sacrificados em nome do lucro, lindo não? Por algum motivo o interesse público existe e devia estar acima do lucro.

Mal refeitos desta enormidade de um capitalismo levado ao extremo, Michael Moore passa a mostrar como muitas empresas americanas fazem seguros de vida aos seus trabalhadores sem que eles e as famílias saibam. Estamos a falar de milhares de dólares, até contemplados nos orçamentos das empresas como “Dead peasants insurance” (sim é verdade, o nome é camponeses mortos!!), documentos onde até se lamentam as taxas de suicídio, que não são lucrativas. Lucrar com a morte de alguém? Isto é inarrável, mas permitido por lei e praticado nos EUA! Como é que isto passa? É fácil de perceber, basta ver quem foram os secretários do Tesouro nos últimos anos nos EUA, tão só a elite financeira, os gestores de topo da Goldman Sachs

O realizador interroga-se (e eu também…) como perante tudo isto, as pessoas pensam que este é o melhor dos sistemas. A resposta é propaganda, manipulação pelo medo e mais propaganda. Ele quer o fim do capitalismo e o regresso à democracia e conta com a ajuda de todos. Vê na eleição de Obama um sinal de mudança. Eu não consigo ser tão optimista, de qualquer forma a minha ajuda é este post. Espero que quem leia perceba melhor a gravidade de viver com um sistema onde o lucro está acima das pessoas e o governo é um mero fantoche da elite financeira, e não deixem mesmo de ver o filme!

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Indicadores

Durante esta semana, surgiram dois indicadores económicos que convém realçar. O primeiro revela o poder de compra dos diferentes países europeus. Numa altura em que se recusam aumentos salariais e que os empresários fazem uma tremenda birra ao crescimento do salário mínimo para 475 euros, este indicador demonstra a profunda injustiça destas propostas. Apesar do custo de vida estar ao nível de outros países europeus (Lisboa já ultrapassou Londres no ranking das capitais mais cara da Europa), os nossos salários são ridiculamente mais baixos. Esta realidade não só tem consequências sociais, como nos afasta da célebre convergência europeia e ainda compromete a dinâmica do consumo e da procura interna.

O segundo indicador diz respeito aos prémios atribuídos aos gestores financeiros. Aqui curiosamente não há falta de convergência com o que se faz no resto da Europa, excepto pela diferente tributação a que estes prémios estão sujeitos. Em França, são tributados a 50%, porque afinal foi a mestria destes génios da gestão financeira que deu origem à crise que atravessamos. Mas em Portugal, não, parece que não houve conduta irresponsável dos gestores financeiros. Talvez o BPN e o BPP tenham sido apenas um sonho mau e o dinheiro dos contribuintes lá injectado, uma mera nuvem de fumo...

Estamos a falar de 300 milhões de euros em prémios, valor que é aceitável para a Banca Portuguesa. É bom recordar que a Banca é tributada na mesma percentagem que as pequenas e médias empresas, algo impensável em qualquer outro país europeu. Não admira que exista dinheiro para prémios chorudos, independemente da recessão e da responsabilidade assumida. Mas o que indigna é um aumento de 15 euros no salário mínimo...

A semana termina com a aprovação da proposta do governo de união entre pessoas do mesmo sexo, medida com a qual me congratulo e que consagra uma igualdade efectiva de direitos. nesta matéria. É sempre bom saber que pelo menos no acesso ao casamento, existe igualdade de direitos. Era óptimo poder dizer o mesmo para a igualdade no acesso ao emprego, à justiça, à saúde e à educação.

sábado, dezembro 12, 2009

A desilusão de Obama

Foi lamentável que Obama surja a defender a guerra, numa sessão de atribuição do prémio Nobel da Paz, ao ponto de ter ouvido Luís Delgado elogiar-lhe o discurso. Se a insistência em levar a cabo o Plano de Saúde, contra todo o tipo de lobbies, me levou a tecer-lhe elogios, a inversão do discurso da paz e do diálogo é uma profunda desilusão. Começa logo na manutenção da estratégia de guerra no Afeganistão. Não digo que fosse possível já uma saída das tropas, mas uma estratégia assente, não no envio de mais tropas, mas no apoio às populações com infra-estruturas, a nível da educação, da agricultura, do abastecimento de agua, era certamente possível.

Em relação ao conflito israelo-árabe, nem um esforço mínimo foi feito para obrigar as duas partes a regressar ao diálogo. Mas talvez mais grave, passando até quase despercebido, foi a renovação do “Patriot Act”. Para quem não se lembra, o “Patriot Act” é um pacote legislativo da Administração Bush, que esmaga todas as liberdades, direitos e garantias dos cidadãos, permitindo que sem ordem judicial ou base concreta de suspeita, se possam colocar escutas, aceder a mails, a tráfego de Internet e todo o tipo de dados pessoais. Esta legislação expirava no final do ano, mas vai ser mantida.

Quem não se lembra dos discursos inflamados de Obama a defender a constituição e os direitos dos cidadãos? Ao que parece a realidade é bem diferente, o “Patriot Act” é para continuar, assim como a guerra no Afeganistão. Para quem, como eu, acreditou em Obama, tudo isto é de uma enorme desilusão que nem o Plano de Saúde pode fazer esquecer. Espero que Obama recorde os seus discursos de paz, diálogo e respeito pelos direitos dos cidadãos e reformule a estratégia que agora está a seguir. Mais do mesmo, não… já são demasiados os exemplos.