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quarta-feira, novembro 23, 2011

Calar ou protestar?



 Amanhã é dia de greve geral e manifestação em frente à Assembleia da República. Não se pode questionar os motivos que levam à greve, nunca foram tantos e tão gravosos. Pode questionar-se se a greve é de facto o meio de luta mais eficaz, apesar de eu achar que se deviam pensar em novas estratégias de contestação, elas ainda não foram definidas. Portanto sobra a greve e a manifestação, são as únicas armas que o cidadão comum que não é dono de um banco ou de uma grande empresa, tem ao seu dispor. A alternativa é não fazer nada, deixar tudo como está, o que tem acontecido nos últimos anos e que nos conduziu à situação dramática de hoje. Para quem diz não adianta nada, faça o favor de olhar em redor e ver as consequências da passividade pós 25 de Abril. Se alguém tem dúvidas acerca do ponto a que se chegou, basta ver este vídeo e os indicadores de desigualdade que colocam Portugal na pior posição possível. E isto foi antes de Passos Coelho. Não é díficil imaginar o depois. Familias empobrecidas, a perder a casa, o emprego, a não conseguir fazer face à subida dos preços e dos impostos, a ver escolas e hospitais a fechar, assim como outros serviços públicos fundamentais. Dizem-nos que o dinheiro não chega, mas chegou para o BPN, chegou para engordar Oliveiras e Costa, Dias Loureiro e Duartes Lima. Há dinheiro para a Banca apresentar lucros milionários, assim como as maiores empresas do mercado. Até produzimos riqueza suficiente para 18 milhões de euros por semana sairem para offshores. Há dinheiro para reformas douradas, subvenções vitalícias e salários milionários. As 28 maiores empresas portuguesas, que enriquecem com o nosso trabalho e com o que consumimos, nem sequer têm domicilio fiscal em Portugal. Enquanto uns são sobrecarregados de impostos, roubados nos seus salários e pensões, outros descontam zero. Não há dinheiro? Porque a maioria da população entre reformas de miséria e salário mínimo, não traz para casa nem 500 euros, está a viver acima das suas possibilidades? Chega de insultos e enganos. Ninguém tem dúvidas do dramatismo da situação. Falta é ter consciência que a nossa resignação, determinará a miséria do nosso futuro e o dos nossos filhos. Lutamos contra uma elite que nos quer pobres, rendidos e escravizados, que querer absorver a riqueza e o poder. Manipula o governo e mistura-se com ele, nunca será chamada a fazer sacrificios porque ameaça levar o dinheiro para fora do país. Só no dia em que o cidadão mostrar que também faz parte da equação, será ouvido e respeitado. Se não fizer parte da equação, será tratado como lixo, há que ter consciência disso. Amanhã é a nossa oportunidade, desperdiçá-la será um erro.

PS. Uma nota final para os que se julgam invulneráveis porque ainda têm um bom emprego, porque trabalham numa boa empresa. Pensem no que acontecerá à empresa quando os clientes não puderem pagar. Os que são funcionarios publicos, mesmo sem dois salarios, acham-se invulneraveis porque ainda têm emprego. Pensem no que lhes acontecerá com um governo que não acredita em serviços publicos e que tem ordem da Troika para despedir? E os comerciantes e pequenos empresarios, donos de cafés e restaurantes, o que acontecerá quando os clientes não tiverem dinheiro para consumir. Neste país não há cidadãos trabalhadores invulneráveis.

segunda-feira, novembro 14, 2011

O fim dos políticos: a democracia vendida aos “tecnocratas”

Nos últimos anos, temos verificado que a democracia já não faz jus ao nome, “poder do povo” é coisa de outros tempos. O que tem acontecido é que os políticos têm vendido a ideologia e os próprios programas políticos ao poder económico. Anos e anos de políticas contra os cidadãos e para favorecer uma elite económica, não poderiam ficar sem consequência. A elite acumulou poder ao ponto de já não precisar dos políticos, o poder económico tomou a democracia. Os cidadãos, afectados por uma eficaz campanha de desinformação (protagonizada pela cúmplice comunicação social) durante algum tempo apanharam as migalhas que sobraram e portanto calaram e consentiram. Agora tudo se faz às claras, já não são necessários referendos, nem eleições. Veja-se o caso da Grécia, Papandreou foi forçado a recuar na ideia de fazer um referendo e posteriormente obrigado a demitir-se, foi substituído por um economista em quem os mercados confiam. Veja-se a Itália, Berlusconi é forçado à demissão e é substituído por um tecnocrata, e aqui a palavra é dita às claras, o povo nem é chamado a escolher o seu governante. É curioso que nem casos de corrupção escandalosos, utilização da imunidade politica como fuga à justiça, abuso de poder, escândalos sexuais inclusivamente com menores, discursos racistas, sexistas e altamente discriminatórios (e outras condutas altamente anti-democráticos) fizeram cair Berlusconi, mas bastou a necessidade de agradar aos mercados para o afastar.

Em Espanha e no nosso país, foi a interferência dos mercados e a dureza dos pacotes de austeridade que levou à queda dos governos de Zapatero e Sócrates. Assim se explica que o governo de Passos Coelho, tenha o seu tecnocrata, Vítor Gaspar, ao serviço dos mercados e da ideologia que os sustenta. Por isso temos um orçamento de Estado criminoso, de uma insensibilidade social atroz que para além de atirar milhares de pessoas para a miséria, elimina o Estado social e os serviços públicos como os conhecemos. Mais grave que isso, compromete qualquer possibilidade de recuperação no futuro, porque arruína qualquer hipótese de crescimento económico e dá de bandeja os poucos meios de controlo da economia de que o Estado ainda dispõe. Conclui o processo de venda da democracia que temos vindo a assistir. Acabou o tempo dos políticos e iniciou-se a era dos tecnocratas. A alta finança ditará a lei daqui em diante, sobreviverá o cidadão que tenha muito dinheiro para comprar os bens e serviços essenciais, os restantes serão subjugados a troco de um prato de comida. Exagero? Antes fosse… a única esperança que resta, é que os cidadãos tomem consciência do que está a acontecer e resgatem a democracia, devolvendo-a à pureza dos seus princípios, elegendo representantes que a alta finança não consiga comprar. Será um processo duro, senão mesmo impossível e julgo que não será iniciado enquanto os cidadãos se contentarem com as míseras migalhas que o poder económico deixa. O que me faz pensar que algo poderá mudar, é que depois deste orçamento, não haverá migalhas para ninguém…

quarta-feira, novembro 02, 2011

Se a única coisa que consegue fazer é empobrecer o país, saia da nossa zona de conforto

Não bastam as medidas assassinas do Orçamento de Estado para 2012, que são a sentença de morte dos direitos conquistados pelos portugueses no 25 de Abril, temos ainda que ouvir as declarações ignobeis do Primeiro-Ministro e do Secretário de Estado da Juventude. Diz o Sr. Primeiro-Ministro com todas as letras, para que ninguém tenha dúvidas, que só vamos sair da crise empobrecendo. Curioso… tinha ideia que a função dos governos era desenvolver o país e fomentar o crescimento económico. Empobrecer é muito fácil, qualquer idiota consegue, basta eliminar salarios, serviços públicos e despedir gente.

Ah pois, isso Passos Coelho sabe fazer. Que as medidas tomadas e a tomar vão empobrecer o país, já tinhamos percebido, o que não tinhamos percebido é que a personagem que nos governa, acha que as suas competências são essas. Como é que é possivel que um governante não saiba, que fomentando o crescimento economico, aumenta a receita e como tal diminui o defice, aumenta o PIB e assim a capacidade de pagar a dívida?? Devia ter colocado essa frase no programa eleitoral, para quem não sabe ler nas entrelinhas ter percebido bem no que estava a votar. Como não o fez, admita que a única coisa que consegue fazer é empobrecer o país, é incapaz de desempenhar o cargo para o qual foi eleito e portanto, seja honesto pela primeira vez na vida e demita-se. Como se um atestado de incompetência fosse pouco, o Secretário de Estado da Juventude resolve aconselhar os jovens e passo a citar: «Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras». Tal como o Primeiro-Ministro, este senhor também desconhece que cabe ao governo promover politicas de emprego para os jovens, que aproveitem o seu potencial e que permitam que o seu trabalho faça aumentar o PIB, que o seu IRS constitua uma receita para o Estado e que contribuam para a sustentabilidade da nossa segurança social (ainda por cima num país com a população envelhecida).
Mas isto é assim tão díficil de compreender? E desde quando, é que escolher ficar num país governado por semelhantes pessoas, é escolher ficar na zona de conforto? Pedir aos jovens para emigrarem e abdicar de lutar pelo desenvolvimento do nosso país, só pode ser explicado estatisticamente, o governo pretende ter uma taxa de desemprego mais simpática e menos encargos para a Segurança Social. Se os jovens não emigrarem, a taxa de desemprego aumenta e isso é capaz de demonstrar que os resultados das medidas do governo são desastrosos e incompetentes… Pois eu tenho uma ideia melhor, e que tal, o Sr. Primeiro-Ministro, o Sr. Secretário de Estado da Juventude e restante equipa governativa, deixarem a nossa zona de conforto e emigrarem? Passamos bem sem a vossa incompetencia na nossa zona de conforto, nem para ganharem o titulo de pior governo da República vos queremos cá…

Legenda: O vídeo que tão bem resume o orçamento de estado é da autoria dos Precários Inflexíveis.

quinta-feira, outubro 27, 2011

A Pequena China da Europa

A expressão é de Pedro Lains referindo-se ao impacto no país, das medidas previstas no orçamento para 2012. A explicação é simples o governo não está preocupado com a redução do défice, mas sim com a alteração do modelo socioeconómico do país, impondo um novo modelo baseado nos baixos custos do trabalho, desvalorização salarial para ganhar competitividade.

«O plano de Vítor Gaspar já chocou muita gente, porque é chocante. E não o fez só à esquerda, pois o PSD também ficou chocado e muito. Mas não se consegue mexer. Nem o PS. A principal razão porque o plano é chocante é que ele assenta numa carta que não estava no baralho: a contracção sem limites de salários - e mais aumento de impostos. Assim qualquer um sabe governar.»

Escola de Milton Friedman que Vítor Gaspar frequenta
Como eu própria já referi antes, trata-se de uma obsessão ideológica, que ultrapassa o que a própria troika determinou e estende no tempo as medidas recessivas. Só assim se percebe a suspensão de 2 meses de salários a funcionários públicos e pensionistas, o aumento em meia hora do dia de trabalho, a carga fiscal esmagadora para quem trabalha por conta de outrem, expropriação dos bens do Estado através de privatizações e a redução dos serviços públicos ao mínimo. Acredita-se piamente que uma economia baseada em baixos salários, intervenção mínima do Estado, relações laborais precárias e expropriação dos bens do Estado é garante de desenvolvimento.

É muito fácil perceber que nada disto garante desenvolvimento, só recessão e destruição da nossa economia. Se reduzimos massivamente o rendimento das pessoas, destruímos o mercado interno, com menos lucros fecha o comercio e as pequenas empresas, o que gera desemprego que por sua vez gera quebra de receitas em impostos para o Estado, enquanto aumenta as despesas com a segurança social. Não devemos esquecer o impacto da pobreza no aumento da criminalidade, nos problemas familiares e sociais que têm reflexo na saúde, na educação e no recurso ao rendimento social de inserção, ou seja aumenta a despesa do Estado. Qualquer pessoa percebe isto.

E o que dizer da meia hora a mais? É muito simples, vai atirar pessoas para o desemprego ou impedir a contratação de outras, num país que precisa urgentemente de resolver o problema da taxa de desemprego elevada. Por outro lado, não convém esquecer o impacto na vida familiar e no bem-estar social. E as privatizações de sectores estratégicos fundamentais e que até dão lucro? Basta olhar para o que aconteceu na Grécia, o contexto desfavorável, fez com que fosse tudo vendido ao desbarato e em vez de 66 milhões obtiveram-se 10! Para além de que, investidores estrangeiros nunca irão garantir a salvaguarda do interesse nacional, somente o que for lucrativo para os próprios. Já nem falo das consequências de serviços públicos mínimos, porque são óbvias, quem é rico paga, quem é pobre sobrevive com caridadezinha ou morre.

E o fundamento do Governo para estas medidas é simples e falso. Não precisamos de mercado interno, vamos crescer pelas exportações e com o financiamento estrangeiro. Falso, as economias estrangeiras estão também em dificuldades e as que não estão, retraem-se. Temos que ter estas politica de austeridade para acalmar os mercados. Falso, o impacto recessivo será tal que impede a economia de crescer e isso recebe nota negativa dos mercados (basta recordar que no mesmo dia em que foram anunciadas as primeiras medidas, o rating desceu para lixo...). Se tentarmos renegociar a divida, não seremos sérios e não podemos voltar aos mercados. Falso, um país com uma economia destruída é que nunca terá benesses dos mercados, se se permite que a Grécia tenha um perdão da divida, temos toda a legitimidade para negociar. Não há alternativas para reduzir o défice. Falso, que tal taxar o grande capital e impedir a fuga para offshores, a mudança de morada fiscal das nossas maiores empresas e taxar as transacções financeiras (há mais mas o post está grande, fica para o próximo). Resumindo: sentença de morte para o país em nome de mitos ideológicos que nunca foram concretizados com sucesso, em parte nenhuma! É de apoiar bovinamente...

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Dos parvos, dos hipócritas e dos lixados

Confesso que achei que a música dos Deolinda “Parva que eu sou” dispensava comentários, porque fala de uma realidade que já todos devíamos conhecer. A precariedade é por acaso alguma novidade? Não é... possivelmente musicar a precariedade é uma novidade nos dias que correm e se chamou a atenção de quem eventualmente andava distraído, melhor ainda. O que a música provocou foi uma avalanche de opiniões, que vão desde o aproveitamento politico da musica pela esquerda e pela direita à comoção hipócrita, passando pelo simples encolher de ombros.

Comecemos pelo aproveitamento político. Que a esquerda faça da música um hino não me surpreende, porque têm sido os partidos mais à esquerda que mais propostas têm apresentado no sentido de combater a precariedade no trabalho (faço a ressalva que o governo não é de esquerda e o que mais tem feito é agravar as condições de trabalho). O que me surpreendeu foi que a direita também pegasse na música, para dizer que foram os gastos exagerados do estado social com os direitos e garantias da geração anterior, os culpados da situação dramática da geração parva. Não há nada como criar um bom conflito inter-geracional! Esses sacanas que tiveram o privilégio de ter reformas, subsídios de doença e desemprego, não deixam os filhos passar dos recibos verdes e dos 500 euros mensais...Como é óbvio, não falam dos verdadeiros responsáveis pela situação, sucessivos governos pós-25 de Abril que fizeram uma gestão ruinosa do bem publico, alimentando clientelas e elites económicas que controlam a Banca, as grandes empresas e a Administração pública.

Depois existem os hipócritas, aqueles que ficam imensamente comovidos com a desgraça da geração parva, ou pelo menos dizem que ficam. Chamo-os de hipócritas, porque muitos deles têm posições de poder, pertencem à tal elite abusadora e têm a trabalhar para si jovens com recibos verdes, contratos precários e com salários baixos. Efectivamente podiam fazer alguma coisa por esta geração e não fazem, limitam-se a reconhecer a injustiça, mas não podem fazer nada, porque isso implicaria perderem regalias de novos-ricos das quais não estão dispostos a abdicar.

Depois existem os que encolhem os ombros. São os que acham tudo isto normal e inevitável, os que acham que é assim e não há nada a fazer, os que nem querem discutir o assunto, muito menos informar-se das alternativas e os que fulminam aqueles que se queixam e se revoltam contra a situação. Não querem chatices, nem preocupações. Os pais deram-lhes tudo e vão continuar a dar. Independência económica, dignidade ou realização são conceitos estranhos que ficam para os “lixados” procurarem. O que nos leva aos lixados. Por ultimo, os lixados são aqueles que não têm pais ricos que os sustentem, não têm cunhas, cartões de militante e para mal dos seus pecados, percebem o que está errado e até querem mudar o que está errado, mas sozinhos não podem... Então quem muda isto? Se os hipocritas não querem, resta saber quando é aqueles que encolhem os ombros ficam lixados...

domingo, dezembro 19, 2010

O FMI não está cá! Está, está...

O governo continua extremamente empenhado em seguir a agenda neoliberal da EU, numa crença ingénua que isso tranquilizará os mercados. A novidade da semana é que os problemas do país estão num mercado laboral demasiado rígido. Quem havia de dizer? Não certamente os mais de 500 mil portugueses desempregados, nem os que trabalham a recibo verde ou a contratos a prazo que a qualquer altura podem ser despedidos. Diz a UE, dizem os economistas brilhantes, logo o governo apressa-se a apresentar um pacote de medidas para tratar de flexibilizar um mercado de trabalho extremamente flexível, colocando em perigo o emprego dos que ainda o conseguem ter.

Veja-se o genial impacto de reduzir o valor das indemnizações e de obrigar as empresas a criar um seguro de despedimento. É mais barato despedir, o que compensa, porque se despedir um trabalhador com alguns anos de casa, que já não estará no escalão salarial mais baixo, pode-se contratar alguém novo e desesperado, disposto a fazer o mesmo trabalho por um salário menor. E o que dizer do seguro, para além de uma despesa extra para quem contrata, só dará lucro se for activado... porque não despedir se ainda se recebe o dinheiro do seguro? Entretanto ainda ganha a Banca que detém as seguradoras! Ficam os “fat cats” felizes e dos trabalhadores, entre a precariedade e o desemprego, o governo e a Europa não querem saber. Nem o FMI faria melhor...

quinta-feira, novembro 25, 2010

Dignidade no trabalho exige-se

Na sequência da greve geral, acho que faz sentido falar um bocadinho do mundo do trabalho. Todos nós já ouvimos histórias de horas extra não remuneradas, pessoas que fazem o trabalho de 2 ou 3, pressões psicológicas de vária ordem, remunerações baixas, falsos recibos verdes e podia continuar. Tudo isto acontece com um Código de Trabalho demasiado rígido, o que seria se não fosse… São muitos os motivos para o descontentamento e a indignação. Mas o mais preocupante é que a tendência é para ver a situação piorar. Veja-se o que se passa na Inglaterra. Na semana passada, o governo britânico anunciou que os desempregados que solicitam auxílio deverão realizar trabalhos não remunerados: caso se neguem a fazê-lo, perderão o subsídio. Estamos a falar da obrigação de realizar trabalhos de jardinagem, limpeza de lixo e outras tarefas manuais por apenas 1 libra/hora. Que melhor estratégia para eliminar postos de trabalho e reduzir custos, usando mão-de-obra quase gratuita?

A retórica que justifica este tipo de medidas, também é nossa conhecida: «esses preguiçosos que não querem trabalhar». Basta ver as últimas reportagens da RTP, para ver este argumento exibido até ao vómito. O que a RTP não disse, é quantos empregos disponíveis existem relativamente ao número de desempregados. No caso da Inglaterra, alegadamente pejada de preguiçosos, temos 459 mil empregos para 2,5 milhões de desempregados. Um preguiçoso poderá ter que disputar o trabalho com 250 colegas… se não conseguir terá de contentar-se com a categoria de desempregado trabalhador, 1 libra hora sem qualquer perspectiva de melhoria social, sabendo que antes estava no seu lugar alguém com emprego. Estamos muito perto da Servidão e não é impressão minha.

É urgente uma mobilização pelo regresso da dignidade no trabalho, seja com greves, protestos ou criticas em conversas de café. Ou melhor inventem-se formas eficazes de protesto, antes que seja tarde demais. Há coisas muito simples do dia-a-dia que alimentam o sistema que nos quer semi-escravos e das quais podemos abdicar: produtos bancários de investimento em acções, cartões de crédito e afins, consumismo irracional em produtos dispensáveis e porque não seguir a sugestão do Cantona? Agir é mesmo necessário!

quinta-feira, outubro 21, 2010

Hipocrisia

Continua a saber-se aos bocadinhos os detalhes da austeridade, agora ficamos a saber que a taxa contributiva dos trabalhadores a recibo verde e com contratos a prazo vai aumentar. Numa coisa realmente o governo é coerente, o ataque aos pobres e desprotegidos é uma constante. Já não basta a precariedade, a inexistência de subsídios de natal, férias ou de doença, a angústia de não saber por quanto tempo terá trabalho e a injustiça de se estar em situação de “falso recibo verde”, acresce um aumento da carga de impostos. Mais uma vez, não se tem em conta a taxa de esforço destes trabalhadores, nem as condições desfavoráveis que já os afectam.

Ao mesmo tempo o governo anuncia quanto vai gastar com o BPN, nada mais, nada menos que 400 milhões, e já não falo no quanto vai gastar em assessoria e em propaganda. É bom que se saiba em nome de quê, se fazem sacrifícios. Em nome do salvamento dos bancos irresponsáveis, é óbvia a injustiça, mas pior é a ironia de estarmos a pagar as mentiras e a propaganda, que nos vão impingir depois, para aceitarmos de ânimo leve os sacrifícios que nos são exigidos. Que é uma injustiça, um assalto até, já percebemos, mas precisava de se revestir de hipocrisia e mesquinhez?

Por falar em hipocrisia, os ministros das finanças da austeridade reúnem-se na UE com o compromisso de eliminar o desemprego em 2020. Parece anedótico que as mesmas pessoas que actualmente estão a impor medidas, que vão atirar milhares para o desemprego, assumam tal compromisso. Se o emprego é fundamental, se calhar assumir esse compromisso já hoje não era má ideia. Reparo ainda nas vozes orgulhosas com o projecto de Edite Estrela, votado no Parlamento Europeu, que aumenta o subsídio de maternidade e paternidade. Nada contra claro, mas digam-me lá se os desempregados beneficiam dessa benesse? E as mulheres que são despedidas ainda grávidas ou melhor que classe média agora pobre, vai pensar em ter filhos sem ter como os sustentar. É pedir muito que se defenda o Estado social, começando pelos direitos mais elementares que estão seriamente em risco? Podem deixar-se de hipocrisia, se faz favor!

terça-feira, setembro 14, 2010

Despedir por sms é razão atendível?

Autor anónimo

quarta-feira, março 17, 2010

PEC: Plano de Extorsão Colectiva?

Depois do orçamento de Estado, das medidas tomadas na Grécia e da campanha das agências de rating, confesso que não esperava nada de bom desde plano de estabilidade e crescimento. Já sabemos quem tem que sofrer, quando se quer descer o défice. Ainda assim, conseguiu ser pior do que eu poderia imaginar. Estamos a falar de uma diminuição de rendimentos substancial nas classes média e baixa. Comecemos pelos cortes nas deduções fiscais com educação e saúde, que vão impedir que as famílias recuperem parte do imposto retido. Num exemplo concreto, um casal com salário mensal de 500 euros, poderia recuperar no IRS anual o equivalente a um mês de salário. Isso vai deixar de acontecer, estamos a falar de menos um salário no rendimento familiar. Por outro lado, os salários estão congelados, as taxas de juros de empréstimo à habitação deverão subir em media 100 euros, os preços dos combustíveis estão novamente em escalada e os restantes produtos deverão seguir pelo mesmo caminho.

Para a Banca e para as grandes empresas, não há aumento de impostos, mesmo sabendo dos lucros milionários obtidos o ano passado. Gestores como o Paulo Penedos e o Rui Pedro Soares vão continuar a receber prémios de 250 mil euros, recompensa de condutas ilegais e eticamente condenáveis. Há domínios intocáveis. E não é a tributação de mais-valias em bolsa e o novo escalão de IRS de 45%, cujo alcance é diminuto, que trazem alguma justiça à distribuição dos sacrifícios pela sociedade.

Não menos preocupantes, são as privatizações de empresas públicas, pagas por todos nós, mas que agora passam a ser de quem puder pagar. A mais escandalosa é a privatização dos CTT... quem poderá garantir serviços, cujo lucro não é visível, quem poderá garantir que um pensionista em Bragança continuará a receber a sua correspondência e a pagar o mesmo que um lisboeta? Isto sem falar da lógica absurda que se mantém, privatizar lucros e manter publico o que dá prejuízo...

Guardei o mais grave para último, porque é da maior insensibilidade social e será dramático para quem ficar desempregado, estiver no desemprego ou numa situação em que necessite de recorrer ao rendimento social de inserção. Precisamente as camadas mais desprotegidas da sociedade, que podem até ser esforçadas e competentes, mas que num contexto de crise económica, foram atiradas para o desemprego. Será reduzido o diferencial entre o ultimo salário e o subsídio. Serão apertadas as regras para aceitação de novo trabalho, mesmo que não seja compensatório. Foi também introduzido um tecto de despesa nas prestações sociais, que quer dizer que quando ele estiver esgotado, quem receber, por exemplo, o subsídio social de desemprego ou o complemento solidário para idosos, apesar de ter direito à prestação já não a receberá.

Percebem agora a satisfação das agências de Rating, do Banco Central europeu, da OCDE e do FMI? É que alguém estudou bem a receita de politicas neoliberais que colocam o lucro acima das pessoas e fez um excelente trabalho de casa. Só é lamentável que a receita seguida foi a que nos trouxe a crise e será a que nos vai mergulhar profundamente nela...

quarta-feira, novembro 18, 2009

O papel da politica salarial na recuperação económica

Assim começa um interessante artigo sobre as consequências do decréscimo dos salários no Reino Unido e o seu impacto na crise económica global. Muito se tem falado da crise financeira, dos créditos, das dívidas, da especulação e muito pouco no papel dos salários, que têm estado em declínio desde os anos 60. Este gráfico compara a percentagem do PIB gasta em salários desde os anos 60 no Reino Unido e é evidente o declínio, em 2005 só 53% do PIB se traduz em salários. O autor explica a tendência pelo aumento do poder negocial dos empregadores, que se deve à erosão dos direitos laborais, ao aumento da procura de emprego e à distribuição global do trabalho. Nota-se até um aumento da produtividade superior à proporção salarial.

O mais preocupante é que o declínio salarial é mais evidente para os trabalhadores que menos ganham, das classes média e baixa. Só as classes mais altas conseguiram um nível salarial idêntico ao índice de prosperidade da economia. Para além de uma sociedade mais desigual, mais endividada e baseada em baixos salários, a consequência é a diminuição do poder de compra que perante custos de vida elevados, leva ao crescimento do endividamento das famílias. Em 1980, 45% do rendimento das famílias era emprestado, em 2007 esse valor triplica para 157% do rendimento!

A par do declínio salarial das classes media e baixa, temos um direcionamento dos lucros obtidos para o pagamento de salários de topo e bónus na área financeira, em detrimento do investimento industrial, que traria largos benefícios a longo prazo. Em vez de financiar a industria e o consumo, o investimento fluiu para produtos financeiros duvidosos e o resultado é o que está à vista. «Little of this financial merry-go-round strengthened Britain’s economic base or helped create sustainable businesses and jobs. Most of it simply encouraged financial speculation aimed at building even larger personal fortunes.»

O congelamento e declínio salarial originou a actual crise económica e comprometeu os níveis de procura necessários a uma recuperação sustentada da economia. Os desequilíbrios e o endividamento só geram instabilidade económica. Já era tempo dos decisores políticos perceberem que enquanto os salários não voltarem a constituir 60% do PIB, a solução para a crise não estará à vista.

terça-feira, maio 19, 2009

Do Cristo Rei à Crise

Ainda anestesiados pela visita da Nossa Senhora de Fátima ao Cristo-Rei, os portugueses não devem ter reparado na queixa do sindicato dos técnicos de emprego, que denuncia o misterioso desaparecimento de 15 mil desempregados das listas do IEFP. Vale tudo para camuflar a dura realidade do desemprego. Já não basta as pessoas que frequentam cursos de formação ou que estão em programas ocupacionais não contarem para a estatística. Isto para já não falar dos trabalhadores independentes sem emprego, os não inscritos, os que já terminaram o período de subsídio, também eles fora dos números do IEFP.

Outra coisa que os portugueses não terão ouvido, é que a EDP os lesou com cobranças indevidas, baseadas em consumos estimados que os clientes de facto não concretizavam. Assim será mais fácil explicar os espantosos lucros da EDP. Da GALP já nem se fala, porque até os mais distraídos já perceberam como estão a ser prejudicados. Basta olhar para os novos painéis indicativos dos preços da gasolina ao longo das auto-estradas, para perceber que os preços são estranhamente iguais, mas atenção que não existe cartelização no mercado...

E já me esquecia de referir, que o número de trabalhadores precários a recibo verde aumentou 53% desde o início da legislatura socialista. Só pode ser motivo de orgulho, não é marca para qualquer governo socialista conseguir atingir.

O bom disto tudo é que o Cristo-Rei e a Nossa Senhora ouviram as preces dos milhares de portugueses e vão dar um jeitinho nisto tudo...

quarta-feira, março 25, 2009

Como é que se quantifica o desespero?


É difícil avaliar um número. Um aumento de 18% de inscritos nos centros de emprego só no mês de Fevereiro traduz-se em quê, exactamente? Quantas vidas estão aqui em jogo? Não só as que perdem o emprego, mas as suas famílias. Perdidas, desesperadas, sem meio de subsistir, sem saber o que esperar do futuro. Como é que se quantifica o desespero? E o que dizer das pessoas que vivem esta mesma situação, mas não estão na estatística?

Não têm trabalho, mas estão num curso de formação perfeitamente ineficaz, logo não contam para a estatística.

Não têm trabalho, mas têm menos de 25 anos, logo não contam para a estatística.

Não têm trabalho, mas já esgotaram o período de subsídio de desemprego, logo não contam para a estatística.

Não têm trabalho, mas o último contrato que tiveram foi inferior a 12 meses, logo não contam para a estatística.

Não têm trabalho, mas trabalham a recibo verde, logo não contam para a estatística.

Mas o que está quantificado é que conta. E não se quantifica o desespero. O desespero não tem impacto impacto económico, não é uma variante como o défice ou a inflação. Logo não é importante, tal como a pobreza e a desigualdade. Não se vê, mas vive-se e sente-se...

segunda-feira, agosto 06, 2007

Uma formação intelectual sólida vale por si

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«O pressuposto é o de que a única função do ensino superior é a de servir de canal de inserção no mercado de trabalho. Uma frequência universitária que não culmine directamente no acesso a uma posição profissional ajustada às aspirações estatutárias e remuneratórias que supostamente transporta consigo, constitui, mais do que uma perda de tempo, uma traição para com aqueles que aí investiram o seu «esforço» (muitas vezes ilustrado através do sugestivo termo «queimar as pestanas») e o dinheiro dos progenitores. Este pressuposto encontra-se bem presente aqui e ali; no modo com que se abusa da inominável expressão «canudo» para se classificar um diploma de formação universitária ou de outras como «tirar um canudo para nada», quando o referido atestado não assegura o acesso a um conjunto de empregos conformes.


«Para nada» – a expressão diz tudo. Sem tradução num valor claro no mercado de trabalho, uma formação superior seria como que uma vacuidade que lança também no vazio a pessoa que a possui. Isto, como se uma formação intelectual sólida, obtida no quadro de saberes constituídos ao longo de séculos, não constituísse um valor em si mesmo, com óbvias consequências na mobilidade cognitiva e consciência crítica dos indivíduos e, por essa via, no dinamismo intelectual e cívico de uma sociedade inteira. (…)»


Estamos agora preocupados com os reflexos do desemprego dos licenciados na imagem social do ensino superior. A sociedade não pode pensar que um canudo não vale nada. A sociedade não pode deixar de compreender, que uma formação intelectual sólida vale por si. Vale por si, mas não tem de valer um emprego. Pena é que a mobilidade cognitiva e a consciência critica não paguem as contas e a alimentação. Sem negar o valor da formação intelectual, porque é as universidades não abrangem também uma vertente práctica, que a enquadre com o mercado de trabalho?


Mas a questão fundamental, está na valorização social da “formação intelectual sólida” e da “mobilidade cognitiva e consciência crítica dos indivíduos”. Por isso eu pergunto porque é esses factores não são percebidos pelos empregadores? E até que ponto as universidades e o próprio Estado, se têm esforçado em valorizar a formação intelectual?

sexta-feira, abril 20, 2007

Novas oportunidades para quem?

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A mais recente campanha do governo de José Sócrates, chega a ser ridícula ou então vivemos em países diferentes. Em Portugal existem 56 mil licenciados desempregados e valoriza-se a qualificação? Estamos a incentivar as pessoas a investir na sua qualificação, quando não existe uma política de emprego que valorize essa qualificação? Incutir falsas expectativas é muito feio… E como se sentem as pessoas licenciadas, que se viram obrigadas a aceitar empregos que nada têm a ver com a sua formação académica, perante esta campanha do governo?

Este cartaz do BE, parece mais em conformidade com o país onde eu vivo…




terça-feira, março 13, 2007

Então, e o desemprego entre os jovens licenciados?

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O que tem o governo feito para solucionar o problema do desemprego entre os licenciados? Dir-me-ão o mesmo que tem feito para diminuir o desemprego em geral, nada. Mas analisemos medidas concretas, primeiro foram os célebres cursos de formação para activos qualificados. Os licenciados eram encaminhados para cursos de formação que terminados, levavam a esmagadora maioria de novo para o desemprego. Qualificar mais quem supostamente já é qualificado, quando as empresas portuguesas não querem empregar pessoal qualificado. Foi portanto um sucesso, de medida.


Depois veio o Programa de Estágios Profissionais para a Administração Pública, financiado por fundos comunitários, pelo POAP. Assim se retiraram 3 mil licenciados das estatísticas do IEFP, que passaram a descontar para o IRS, mas não a descontar para a segurança social. À semelhança do que aconteceu, com os cursos de formação, terminado o estágio, os licenciados voltam ao desemprego. Mas desta vez, com a agravante de não terem direito a subsídio de desemprego, ou seja, desta vez são um encargo bem mais leve para o Estado. Muito conveniente, muito socialista…


Como a medida foi afinal proveitosa, não para resolver o problema do desemprego entre os licenciados, mas para o orçamento do Estado, surge o mesmo programa aplicado à Administração Local. À semelhança do PEPAP, o PEPAL está a retirar centenas de licenciados das listas do IEFP. Claro que está devidamente legislado que os PEPAP não podem beneficiar deste novo programa, apesar de estarem novamente desempregados. O programa está agora a ser implementado, mas atrevo-me, pela lógica, a prever que daqui a um ano estes jovens licenciados estarão novamente desempregados.

"L'Avenir", Cartoon de Plantu

Não existe nenhuma política activa e uma estratégia de fundo para combater o desemprego entre os licenciados. O problema arrasta-se no tempo. Milhares de vidas em suspenso. Milhares a questionar o seu lugar, o seu futuro. Muitos em situações de depressão, com a auto-estima abalada, omitem a condição de licenciados. Os que não ficam no desemprego, obrigam-se a aceitar empregos desqualificados, afastados da sua área de licenciatura. O melhor que Portugal tem a oferecer aos seus licenciados é um trabalho num Call-Center…