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quarta-feira, novembro 23, 2011

Calar ou protestar?



 Amanhã é dia de greve geral e manifestação em frente à Assembleia da República. Não se pode questionar os motivos que levam à greve, nunca foram tantos e tão gravosos. Pode questionar-se se a greve é de facto o meio de luta mais eficaz, apesar de eu achar que se deviam pensar em novas estratégias de contestação, elas ainda não foram definidas. Portanto sobra a greve e a manifestação, são as únicas armas que o cidadão comum que não é dono de um banco ou de uma grande empresa, tem ao seu dispor. A alternativa é não fazer nada, deixar tudo como está, o que tem acontecido nos últimos anos e que nos conduziu à situação dramática de hoje. Para quem diz não adianta nada, faça o favor de olhar em redor e ver as consequências da passividade pós 25 de Abril. Se alguém tem dúvidas acerca do ponto a que se chegou, basta ver este vídeo e os indicadores de desigualdade que colocam Portugal na pior posição possível. E isto foi antes de Passos Coelho. Não é díficil imaginar o depois. Familias empobrecidas, a perder a casa, o emprego, a não conseguir fazer face à subida dos preços e dos impostos, a ver escolas e hospitais a fechar, assim como outros serviços públicos fundamentais. Dizem-nos que o dinheiro não chega, mas chegou para o BPN, chegou para engordar Oliveiras e Costa, Dias Loureiro e Duartes Lima. Há dinheiro para a Banca apresentar lucros milionários, assim como as maiores empresas do mercado. Até produzimos riqueza suficiente para 18 milhões de euros por semana sairem para offshores. Há dinheiro para reformas douradas, subvenções vitalícias e salários milionários. As 28 maiores empresas portuguesas, que enriquecem com o nosso trabalho e com o que consumimos, nem sequer têm domicilio fiscal em Portugal. Enquanto uns são sobrecarregados de impostos, roubados nos seus salários e pensões, outros descontam zero. Não há dinheiro? Porque a maioria da população entre reformas de miséria e salário mínimo, não traz para casa nem 500 euros, está a viver acima das suas possibilidades? Chega de insultos e enganos. Ninguém tem dúvidas do dramatismo da situação. Falta é ter consciência que a nossa resignação, determinará a miséria do nosso futuro e o dos nossos filhos. Lutamos contra uma elite que nos quer pobres, rendidos e escravizados, que querer absorver a riqueza e o poder. Manipula o governo e mistura-se com ele, nunca será chamada a fazer sacrificios porque ameaça levar o dinheiro para fora do país. Só no dia em que o cidadão mostrar que também faz parte da equação, será ouvido e respeitado. Se não fizer parte da equação, será tratado como lixo, há que ter consciência disso. Amanhã é a nossa oportunidade, desperdiçá-la será um erro.

PS. Uma nota final para os que se julgam invulneráveis porque ainda têm um bom emprego, porque trabalham numa boa empresa. Pensem no que acontecerá à empresa quando os clientes não puderem pagar. Os que são funcionarios publicos, mesmo sem dois salarios, acham-se invulneraveis porque ainda têm emprego. Pensem no que lhes acontecerá com um governo que não acredita em serviços publicos e que tem ordem da Troika para despedir? E os comerciantes e pequenos empresarios, donos de cafés e restaurantes, o que acontecerá quando os clientes não tiverem dinheiro para consumir. Neste país não há cidadãos trabalhadores invulneráveis.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Pela liberdade ou pela justiça social?



Muito se tem falado da Tunísia e do Egipto, dos levantamentos populares em nome da democracia. O que está em causa são uns terríveis ditadores, cuja opressão se tornou insuportável para as populações. Mas estes levantamentos, mais que a liberdade exigem justiça social. Se a liberdade fosse a única coisa em causa, já teríamos assistido a estas movimentações há anos atrás. Sem querer desvalorizar a defesa da liberdade, que é fundamental, chamo a atenção que se exige mais. Será coincidência que os Média não falem no desemprego, no aumento do custo de vida, nos jovens licenciados sem perspectivas e num contexto de completa crise social, que foi o rastilho de pólvora para os levantamentos populares? Claro que não, podiam as pessoas começar a fazer comparações... afinal de contas, em Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, não há desemprego, pobreza e jovens licenciados sem perspectivas...

O melhor é mesmo que cá se pense, que lá longe existem uns povos a pedir democracia e a lutar contra os ditadores maus. Nada disto tem a ver connosco! Os nossos problemas não têm nada a ver. Nós não precisamos tanto de justiça social, de igualdade de oportunidades, de emprego e direito à felicidade como precisamos de democracia e de liberdade... Espero sinceramente que tunisinos e egípcios vençam esta batalha e que a sua luta pela justiça social e por uma democracia fraterna, venha a ser também a nossa.

segunda-feira, abril 26, 2010

Abril?

As minhas ausências têm sido frequentes, porque neste momento, acredito muito pouco que escrever um post tenha qualquer consequência. Passados 36 anos da revolução de Abril, os valores da justiça, da igualdade, da fraternidade parecem ter caído por terra, perante a resignação aparente dos cidadãos. 36 anos depois parece que a revolução foi feita para que uma elite económica receba benefícios e privilégios, enquanto a maioria da população vive angustiada entre o desemprego e um trabalho precário. O governo, cujo compromisso democrático seria zelar pelos interesses dessa maioria, não só não o faz como favorece os que já estão favorecidos.

Dir-me-ão que nada disto é novo. A novidade está na dimensão que atingiu. Nunca vimos tão escandalosas diferenças salariais, os prémios dos gestores públicos, nomeações sem concurso, cortes nas prestações sociais, sobretudo no apoio no desemprego, congelamento de salários (até em situações de empresas que estão a dar lucro e que premeiam os seus directores principescamente), o mercado dos combustíveis em descontrolo com subidas de preço que ameaçam o resto da economia. Sucedem-se os casos de corrupção, que o sistema de justiça não só não castiga como absolve, passando a mensagem que efectivamente compensa. Enfim, a lista infindável e faz com que não se possa falar de igualdade e fraternidade e muito menos de justiça, no país que fez o 25 de Abril.

A questão que se coloca é se as pessoas estão dispostas a voltar a debater-se por estes valores. Até que ponto percebem que existem outras políticas, existem alternativas, vão exigir uma mudança ou não? Ontem assisti a um espectáculo de homenagem a Zeca Afonso, em que um dos artistas tentou incentivar o publico a gritar «A revolução somos nós», o silêncio foi esmagador. O povo que fez o 25 de Abril resignou-se...

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Um Natal às escuras que não foi culpa de ninguém

O Natal de 2009 foi passado sem água, nem electricidade por largas centenas de famílias, o que deve ser uma maravilhosa experiencia de regresso ao inicio do sec. XX. Tudo por culpa desse sujeito de costas largas chamado “catástrofe natural”, mais concretamente um ciclone tropical, fenómeno meteorológico naturalíssimo e habitual no nosso país, historicamente documentado. A culpa não foi certamente das alterações climáticas provocadas por emissões excessivas de CO2 e aquecimento global, que gerações de políticos incompetentes ignoram, em hilariantes e ridículas cimeiras, como a de Copenhaga... Diga-se também que os próprios cidadãos que levam com as catástrofes naturais, dão tanta importância a esta realidade como os políticos incompetentes que elegeram. Sendo que os primeiros se podem queixar da desinformação, enquanto que os segundos se limitam a fazer o que sempre fizeram, que é assegurar os interesses dos grandes grupos económicos, em detrimento do cidadão comum.

Mas voltando aos culpados ou melhor aos inocentes, quem também não teve culpa foi a EDP cujos responsáveis já descartaram qualquer responsabilidade, passando a bola ao sujeito de costas largas chamado “catástrofe natural”. Seria pedir muito que parte dos lucros milionários da EDP fossem canalizados para a manutenção da rede eléctrica e para o reforço das estruturas existentes, ou até para um impensável plano de emergência em caso de danificação da rede eléctrica. Era pedir muito claro, a EDP precisa de capital para investir nos EUA, não vai agora preocupar-se com um serviço que tem por compromisso prestar aos clientes e que para mais é essencial. Que raio de ideia achar que os clientes/cidadãos vêm antes do lucro…É que a manutenção e renovação da rede eléctrica ainda custa dinheiro, assim como a contratação de mais técnicos (é mais rápido e eficiente vir uma equipa técnica do Minho para Torres Vedras…). Há que ser compreensivo, até era Natal... Ninguém poderia prever que anos e anos de medidas ambientais adiadas, tivessem consequências no clima, não é? E o lucro faz tanta falta…

sábado, outubro 31, 2009

Corrupção e elites

«José Penedos, antigo secretário de Estado de Guterres e actual presidente da REN, será constituído arguido quando regressar a Portugal, no âmbito da operação Face Oculta. Fonte ligada ao processo que investiga suspeitas de corrupção e favorecimento da empresa O2 em concursos de empresas participadas do Estado confirmou haver indícios que envolvem José Penedos. Contactado pelo i, o presidente da REN assegura estar "completamente tranquilo" e desconhecer todo o processo. Confrontado com informações de escutas telefónicas em que o empresário Manuel Godinho, ontem detido, oferece 270 mil euros ao filho, Paulo Penedos, para influenciar a renovação do contrato de gestão global de resíduos, José Penedos afasta suspeições.

(...) Já ontem outro antigo ministro de Guterres, Armando Vara - forçado a demitir-se devido ao escândalo da Fundação para a Prevenção e Segurança - foi envolvido no processo "Face Oculta". Pela sua posição de influência junto dos gestores públicos, terá tentado intervir nos concursos. É pelo menos nesse sentido que aponta uma escuta referida nos documentos que ontem acompanharam os mandados de busca. Terão sido oferecidos a Armando Vara dez mil euros para ajudar a O2.»

Este caso é bem exemplificativo do que está errado com o nosso país. A promiscuidade entre a elite politica e a económica, a facilidade com que se compram favores, a inoperância da justiça. Estamos a falar de ganhos ilícitos, de enriquecimento à custa da riqueza que todos produzimos. Perante casos destes, que sabemos que se multiplicam por esse país fora aos milhares, percebemos o quanto do PIB é sacrificado devido à corrupção. Sendo assim é natural que muitos saíam prejudicados, enquanto alguns ganham quantias avultadas e indevidas. A coesão e a justiça social ficam seriamente comprometidas.

O resultado está à vista. É esta a elite que tem cargos de poder, que domina sectores estrategicos da nossa economia e que afectam as nossas vidas. Estão lá por mérito próprio, ou porque souberam comprar favores e manipular interesses? Tudo isto perante a passividade de quem?

quinta-feira, outubro 08, 2009

Reflexão sobre o individualismo

Vale a pena analisar até que ponto, devemos repensar as convicções que têm fundamentado a orientação politica das nossas democracias. O que temos assistido desde o aparecimento do capitalismo, é a convicção de que o mercado e a escolha individual são os instrumentos mais eficazes de expressão da liberdade individual. Esta ideia foi levada ao expoente máximo com o neo-liberalismo actual e a ideia que a liberdade individual se baseia nas relações sociais, na solidariedade, na partilha e num socialismo ético, parece ter sido colocada de parte. Do conceito de individualismo, que é inevitável e aceitável passamos a uma sociedade baseada num individualismo egoísta, que tende a ignorar a responsabilidade social de cada um e a noção de bem-comum.

O resultado do individualismo egoísta é uma sociedade injusta e com desigualdades gritantes, em que se cria um mal-estar latente. As pessoas são pressionadas a produzir, a aumentar o lucro em prejuízo das suas vidas pessoais e na maioria das vezes, esse esforço nem se traduz na garantia de padrões mínimos de sobrevivência. O lucro que supostamente se produz não significa melhoria da qualidade de vida da sociedade no seu todo, mas apenas de uma elite ligada aos grandes grupos económicos ou ao poder político. Esta orientação para o lucro e não para o bem-comum, que deriva do individualismo egoísta mais cedo ou mais tarde, provocará uma desagregação social de consequências imprevisíveis.

Mais cedo ou mais tarde, o individualismo egoísta terá de dar lugar a um individualismo responsável e novas formas de conciliar individualidade e sociedade terão de emergir. Conceitos como socialismo ou comunismo terão de ser repensados e ajustados ao sec. XXI, sem que percam a sua essência original, que passa pela ideia de que a liberdade individual se baseia nas relações sociais, na solidariedade, na partilha, na justiça e na coesão social. Insistir numa lógica de mercado, de orientação para o lucro e de egocentrismo mascarada de esquerda ou de socialismo moderno, não é a solução e só nos levará à ruptura. E a ruptura acontecerá quando o cidadão comum perceber que a sua liberdade individual e o seu trabalho já não lhe garantem a sobrevivência, e basta olhar em volta para perceber que essa realidade, já esteve mais longe de suceder…

quinta-feira, setembro 24, 2009

Tempo de escolher

Noutras eleições não me tenho pronunciado sobre intenções de voto, até porque quem ler este blog e acompanhar as minhas preocupações, percebe perfeitamente a minha orientação politica. Considero que só uma politica verdadeiramente de esquerda poderá garantir a justiça social e a equidade, que é o problema fundamental da nossa democracia. Não poderá haver crescimento económico sustentável enquanto uma minoria absorver grande parte da riqueza controlando o poder político, condenando a maioria da população a ver os seus direitos fundamentais limitados e as suas aspirações individuais cerceadas. Acredito que existem bens e serviços indispensáveis à sobrevivência que devem estar acessíveis a todos, independentemente do seu poder económico. Estou a falar da saúde, do emprego, da educação, da habitação, da água e dos recursos energéticos. Chamem-me radical, mas é uma questão de justiça e de direitos e garantias fundamentais. Assegurado o básico, cada um pode aspirar e lutar pelo que quiser e então venha o mérito, o individualismo e quaisquer escolhas só limitadas pela lei e pelos legítimos direitos do outro.

Claro que dificilmente algum partido, colocaria tudo isto em prática, até pela dimensão dos abusos e das desigualdades. Mas no mínimo, não se dê ao voto aos dois partidos do centrão que nos governam desde o 25 de Abril e que nos têm retirado sucessivamente estes direitos e garantias. Não é aceitável a situação de precariedade e de pobreza em que a maioria da população vive, que está muitas vezes encoberta pelo apoio de familiares ou de instituições privadas de solidariedade social. E de facto, só à esquerda do PS (como já disse noutros posts, o PS de Sócrates não é esquerda) é que eu encontro algum desejo de combater esta realidade e de mudar alguma coisa.

E porque é que a direita não é a solução? Porque foram soluções de direita que nos deixaram onde estamos hoje. Foram politicas neoliberais que encheram uma minoria de riqueza e de privilégios, reduzindo a questão dos direitos e garantias fundamentais, a algo acessível só a quem puder pagar. Até os cuidados básicos de saúde exigem o pagamento de uma taxa moderadora. Veja-se quantos direitos consegue uma pessoa pagar com uma reforma mensal de 200 euros ou mesmo com o salário mínimo... E por falar em direita, vale a pena analisar o fenómeno CDS que se tem tentado apresentar como alternativa à política actual. Penso que os eleitores não vão deixar de associar o CDS de Paulo Portas às politicas do centrão, mesmo tendo o populismo do senhor tentado dissimular estas relações com o poder. É preciso que se perceba a quem ele pretende tirar regalias, a esses privilegiados que recebem o rendimento social de inserção. A quem tem verdadeiramente regalias desmedidas, não existe nada a retirar.

Por tudo isto, eu concordo com Francisco Louçã, a escolha é entre a maioria absoluta e a esquerda. E é à esquerda que eu tenciono dar o meu voto. Por algum motivo, o BE tem sido atacado pelo PS, PSD e até CDS... será receio que alguma coisa efectivamente mude?

sexta-feira, setembro 04, 2009

Não é óbvio?

Com as legislativas à porta, e numa altura em que surgem os primeiros debates entre candidatos, vale a pena pensar um bocadinho nas medidas que era importante ver implementadas. O que precisa urgentemente de mudar, parece-me mais importante do que discutir jogos de influencias sobre o jornal da TVI. É tal a promiscuidade entre o poder político e o poder económico, que qualquer deles já faz da comunicação social uma marioneta. Se o poder não estivesse concentrado nas mãos destes dois grupos e se a sua acção fosse regulamentada, hoje não se falaria tanto do Jornal de Sexta.

O que é que precisa efectivamente de mudar? O poder político beneficia os grandes grupos económicos que por sua vez se vêem obrigados a retribuir o favor e vice versa. Esse ciclo vicioso tem que terminar, sob pena de esmagar todos os direitos dos restantes cidadãos, que vão desde o direito a ter um emprego até à liberdade de informação.

Existindo coragem política é possivel acabar com esse privilégio absurdo, bastam algumas medidazinhas verdadeiramente de esquerda como: taxar as grandes fortunas, aumentar os impostos à banca, nacionalizar o sector energético, controlar a saída de capitais para offshores (só para dar alguns exemplos). Estas medidas não só evitariam a capacidade de lobby de alguns grupos económicos, como trariam maior justiça social. O Estado teria mais dinheiro para pagar a convergência das pensões ao salário mínimo nacional, combater a pobreza, proporcionar mais e melhor saúde e educação. Não se colocaria em causa o financiamento da segurança social.

Não é óbvio?

domingo, julho 12, 2009

Hipocrisias...

Acho que este post vai ser uma espécie de rescaldo da semana. A nível nacional, e uma vez que já falei do Ronaldo, falta destacar o triste final da comissão de inquérito ao BPN. Quando toda a gente ouviu evidencias mais que suficientes do desleixo da supervisão do Banco de Portugal, o PS protege um dos seus e mais uma vez as responsabilidades ficam por atribuir. Pelo menos os trabalhos da Comissão tiveram alguma cobertura televisiva, que permitiu às pessoas perceberem alguns dos esquemas fraudulentos que a alta finança utiliza, com a complacência da Supervisão. Esperar que o sentido de justiça e o peso dos factos superassem os interesses partidários, era de facto pedir de mais… Assim não será surpreendente o descrédito da imagem dos partidos juntos dos eleitores.


A nível internacional, não posso deixar de falar na escolha da cidade de L’Aquilla para receber a cimeira do G8. As cimeiras do G8 já são escandalosas sessões de prepotência e manutenção de “status quo”, mas é preciso serem também insultuosas para populações que perderam tudo e vivem ainda em tendas? Não é indecente? Qual é o objectivo é para que não existam manifestações, dado à dificuldade de acessos e inexistência de infra-estruturas, pouco importando como isso prejudica quem lá tem de viver? Ou é alguma exibição de um Berlusconi que acha que está a lidar com a situação de L’Aquilla de uma forma brilhante? Ou será um pretexto para os líderes do G8 demonstrarem caridade com os pobres e desfavorecidos? Devia existir algum limite para a hipocrisia…

quinta-feira, abril 23, 2009

Preocupante ou talvez não

Regressada à normalidade técnica (sim, o portátil é vivo), só o cansaço e o trabalho me impedem de actualizar o blog. No último post, fiquei de aprofundar porque me indignou o aumento das custas judiciais. Num contexto de crise económica e desemprego, tem um enorme peso na decisão do cidadão recorrer à justiça, sabendo que à cabeça terá que pagar metade do custo total do processo. Ainda por cima, um cidadão que sabe o tempo que os processos se arrastam, e que consegue apontar n casos, em que as responsabilidades nunca foram apuradas e portanto já está descrente da eficácia desse esforço financeiro. Só irá fazer esse esforço, quem tenha um poder económico considerável para contratar um advogado de renome ou quem ache que consegue mover influências.

O que torna tudo isto procupante, é que a justiça é um garante do sistema democrático. A pensar nesta questão, lembrei-me de um post do Devaneios Desintéricos e como alguém já tinha exposto esta preocupação claramente há um ano atrás:

«O acesso à Justiça é um dos melhores indicadores da salubridade democrática de um Estado. Não é, pois, por acaso que quase todas as Constituições dos países livres dedicam algumas linhas dos respectivos elencos de direitos, liberdades e garantias a assegurarem que a nenhum cidadão poderá ser negado o acesso à Justiça em resultado das suas insuficiências económicas.»

Na altura o tema era a Portaria nº10/2008, que na prática limitava o acesso aos advogados oficiosos e assim vedava o acesso à justiça dos cidadãos com dificuldades económicas. E se esse facto já era preocupante e discriminatório, é agora agravado. A discriminação de quem tem carências económicas é evidente e no entanto envolve um silêncio ensurdecedor.

Será que se tornou tão banal e expectável, que já não merece a nossa atenção?


segunda-feira, abril 20, 2009

Não, este blog não foi abandonado...

Ao contrário do que possa parecer, este blog não foi abandonado. Está a ser negligenciado por motivos técnicos, o portátil da blogger resolveu falecer. E está nesta altura nas mãos de um especialista que nem olhou para ele ainda... O que faz deste momento uma excelente altura para falar da actualidade, porque a minha raiva está direccionada para a tecnologia no geral e para os técnicos de informática em particular. É lamentável, porque eu até tinha várias críticas a fazer., facto agravado pela ausência de tempo para isso claro, porque fica mal estar no pc do trabalho a escrever longos posts...

Vou abreviar as críticas que tinha a fazer, sendo que alterei a minha ordem de prioridades. A sociedade de consumo e a "produção de material de duração inferior a 3 anos, para que depois se compre outro novo" está a conseguir irritar-me mais que o Socrátes, o que, sabe quem me lê, não é nada fácil. Estamos a falar do homem que escolhe Durão Barroso, o pagem da cimeira das Lages para Presidente da Comissão Europeia. E é também o tipo, que está a impedir o acesso já de si díficil dos cidadãos à justiça, pelo aumento das custas judiciais, num país em que os familiares das vítimas da queda de uma infra-estrutura do Estado acabam a pagar as custas judiciais desse mesmo processo. Se o panorama era lindo, ficou melhor.

E deixem-me que vos diga, este raciocínio já provocou o realinhamento das minhas prioridades... e o desenvolvimento desta ideia ficará para quando o meu portátil regressar do mundo dos mortos, se resolver regressar...

sábado, março 28, 2009

A crise não passou por aqui...


António Vitorino não se pode queixar da crise, por cada assembleia geral da Brisa ganha 5 mil euros. Três horas a debitar ordens de trabalhos e a passar a palavra ao senhor accionista A, B ou C valem 5 mil euros? É remuneração digna de jogador de futebol! Justíssimo dirá certamente com ironia quem nem anualmente aufere essa quantia...

terça-feira, dezembro 09, 2008

Precisamos de lutar pela democracia e pela liberdade, pelo direito à própria vida?

A agitação social que se vive na Grécia, chega-nos através dos Média, como uma mera reacção de indignação à morte de um jovem pela polícia. Tem passado despercebido a actuação do governo grego, a grave crise ecónomica e social, escandalosos crimes de corrupção e um desemprego juvenil que ronda os 22,9%. Só isso explica que um caso específico, ainda que dramático, tenha levado a uma revolta popular, como há 35 anos não se via naquele país.. É bom que se perceba porque este comunicado, fez eco junto das pessoas:

«Não há desculpas. O rapaz de 16 anos figura já ao lado de todos os jovens lutadores - Petroulas, Komninos, Koumis, Sotiropoulou, Kaltezas - que foram privados da vida apenas por amarem a liberdade.

Na Grécia, sob o governo da Nova Democracia, é um crime ser jovem. As balas não são a única armas usada para matar a juventude. Os jovens são assassinados pelo desemprego, pela insegurança, pela invasão do lucro no sistema educativo, pela falta de esperanças e de perspectivas.

A Nova Democracia não pode continuar no governo. Chamamos a juventude - os alunos, os estudantes, os jovens trabalhadores de todas as cidades - a responder maciçamente, pacificamente e de forma militante. Junto com a luta pelo direito ao emprego, junto com a luta pelas universidades estatais, precisamos lutar pela democracia e pela liberdade, pelo direito à própria vida. Quando estes forem conseguidos pela nossa juventude, então a memória do seu colega será plenamente honrada. A palavra de ordem: "Pão, educação, liberdade" ganha de novo actualidade.»

O que eu não percebo é como é que só os gregos se aperceberam do desemprego, da insegurança, da falta de esperança e perpectivas. Este cenário é demasiado familiar ou há quem se esforce, muito mais cá do que na Grécia, para que passe despercebido? Teremos que esperar muito até os portugueses chegarem lá?

De repente, vem-me à cabeça uma frase que ouvi do Bill Maher:

«O verdadeiro eixo do mal é a genialidade do marketing, combinada com a estupidez do nosso povo»

sábado, novembro 15, 2008

Ainda a avaliação dos Professores

Os Professores voltaram a sair à rua, em mais uma impressionante manifestação contra a Ministra da Educação. Vale a pena ouvir o que os Professores contam que se está a passar nas escolas. Tenho ouvido muitas críticas da opinião pública, dizendo que os Professores não querem é ser avaliados como os restantes funcionários, o que me parece injusto.

Os Professores querem ser avaliados, não querem é ser mal avaliados. E se um Professor de Matemática vai avaliar um Professor de Biologia, não é isso que acontece? Colegas avaliados por colegas, que eventualmente disputam a mesma classificação num apertado regime de cotas? Não parece que estes factos possam conduzir a avaliações justas e isentas. Para já não falar das centenas de fichas e grelhas de avaliação, que os Professores passam horas a preencher, quando deviam estar a preparar aulas... Fiquei pasmada, quando uma Professora do ensino básico me contou que é ela que preenche o formulário online de 5 páginas, para pedir o Magalhães, para cada um dos seus alunos e um dos itens a referir é o seu próprio NIB??

O próprio Primeiro-Ministro disse que os Professores nunca antes tinham sido avaliados, o que é escandaloso. Para serem profissionalizados, os Professores passam por um ano de estágio, com dezenas de aulas assistidas por mais que um Professor, todo o material pedagógico produzido é visto e revisto, assim como todas as actividades realizadas. Claro que há Professores não profissionalizados, mas tomar o todo pela parte, é tudo menos justo.

Gostava de saber como iam reagir alunos e pais, se fossem avaliados desta forma?


Fonte da imagem: Blog "We have kaos in the garden"

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Ser real ou ter vergonha...

«Segundo um dos grandes teólogos da libertação, o jesuíta Jon Sobrino, o mundo em que vivemos hoje exige que sejamos reais. Ser real significa viver de tal maneira que não tenhamos de nos envergonhar por vivermos neste mundo. É uma exigência radical quando são tantos os motivos para nos envergonharmos e quando, para vencer a vergonha, seriam necessárias intervenções de tal magnitude que a acção individual é irrelevante. Mas a exigência é ainda mais radical se tivermos em conta que muitos dos motivos de vergonha nos escapam, porque não sabemos deles, porque as suas vitimas são invisíveis, estão em silêncio ou silenciadas.»


Boaventura de Sousa Santos in Visão de 20 de Dezembro de 2007


quarta-feira, setembro 26, 2007

Say WHAT??



Via Arrastão


Quando pensamos que nada vindo da Administração Bush, nos pode surpreender... eis que me deparo com este vídeo... Um Presidente concede imunidade a si próprio e à sua administração, evitando futuras condenações por crimes de guerra. Muito conveniente! "Ao menos Nixon teve Gerald Ford, para lhe fazer o trabalho sujo" observa e muito bem Jack Cafferty, é uma falta de vergonha sem precedentes. A minha pergunta é, e quem o impede?


quinta-feira, janeiro 25, 2007

Entre o branco e o preto, há uma vasta escala de tons de cinzento

Confesso que não gosto de me pronunciar sobre casos, em que não consigo conhecer com segurança todos os factos. Não gosto de julgamentos apressados. Chocam-me os radicalismos, chocam-me os extremos. Já ouvi pessoas criticarem ferozmente os pais de “Esmeralda” porque provavelmente compraram a criança à brasileira, outros disseram que o pai biológico só está interessado nos 30 mil euros de indemnização, porque até está desempregado.

Como se mede e avalia o egoísmo ou inversamente, como se mede e avalia o amor verdadeiro e desinteressado?

Temos um pai biológico que duvidou da sua paternidade, nem vou especular sobre os motivos dessa dúvida. Mas duas certezas existiam, ele manteve de facto uma relação sexual não protegida e por isso haveria sempre uma probabilidade de ele, ser de facto o pai. Ele escolheu rejeitar essa probabilidade, nesse momento a paternidade não lhe provocou qualquer simpatia. Foi uma escolha e as nossas escolhas têm sempre consequências.

A mãe biológica não tendo emprego, nem condições para educar a criança, concorda em abdicar da sua maternidade. Um casal decide adoptar. E até aqui tudo parece lógico. Excepto a parte em que se verifica que o processo de adopção não foi legal. E aqui, entra uma questão que eu ainda não vi ninguém colocar. Porque é que de um caso em que existe uma vontade expressa de regularizar uma adopção, de ambas as partes (recordo que o pai biológico, neste momento recusava a paternidade), resulta um processo ilegal? Quem prestou aconselhamento jurídico a este casal? Onde estava a segurança social, existiu algum contacto, que tipo de apoio? Quem pode afirmar com segurança que existiu desleixo do casal adoptivo, quando pode ter havido desinformação ou falta de informação?

Mas a “Esmeralda” precisava de um pai e de uma mãe, não podia esperar que se deslindassem burocracias, legalidades e ilegalidades. E teve-os, para ela, eles existem, mesmo se juridicamente não o são. Mesmo que legalmente, a sua custódia venha a ser atribuída ao pai biológico que nunca conheceu.

Quem teve dúvidas, quem fez escolhas? É justo que as duvidas e escolhas erradas de um pai, por muito legitimas que fossem, venham retirar à criança os pais que ela reconhece como seus? Outra questão é legitimo que os pais adoptivos impeçam o pai biológico de ver a criança e fujam à justiça? O que está aqui em jogo? O orgulho de quem quer deter a paternidade, com se de um bem se tratasse? Ou o amor verdadeiro e desinteressado de quem pensa que a razão da felicidade da menina está do seu lado?

Estará o egoísmo e o orgulho só de um lado e o amor desinteressado exclusivamente no outro? De um lado, os bons, do outro os maus? Não haverá entre o branco e o preto, uma vasta escala de tons de cinzento?

Imagem: "O julgamento do rei Salomão" de Rubens