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domingo, agosto 09, 2009

Ainda há alguém a construir?

Que eu não fui há um momento,
sabes já? E tu dizes não saber.
Então sinto que se não andar a correr,
posso nunca ter passado totalmente.

Sim, mais do que sonho de um sonho sou.
Só o que a limites consolidados aspirou,
é como um dia e como um som que esvoaça;
pelas tuas mãos inominado passa,
para a múltipla liberdade encontrar,
e elas com tristeza o vêm a abandonar.



E o escuro apenas para ti ficou,
e, crescendo para a luz vazia,
uma história do mundo se erguia
de uma pedra que cada vez mais cegou.
Ainda há alguém a construir?
As massas de novo às massas dão voltas,
as pedras estão como soltas

E nenhuma foi por ti talhada...


Rainer Maria Rilke

In O Livro de Horas, p. 161

terça-feira, dezembro 30, 2008

As palavras que perdi ontem...

Detesto quando isto acontece. Ontem pensei num texto muito razoavelzinho para postar no blog. Acontece que não tinha onde escrever. Hoje que tenho o écran vazio à minha frente, não me sai nada de espirituoso. Podia tentar lembrar-me das palavras, mas já não saem da mesma forma. Não ia adiantar. Mais vale articular um discurso inflamado contra as incursões israelitas na faixa de Gaza. Os bombardeamentos a supostos ninhos de terroristas ceifam a vida de centenas de civis inocentes, mas esse é sempre um dano colateral justificado. É um argumento que se torna aborrecido, já para não julgar a ética e a moral de quem o profere. E atenção que o meu discurso inflamado aplica-se também ao Hamas, aos turcos e ao terrorista que se explodiu junto a uma escola no Paquistão.

O meu texto de ontem não era sobre a guerra. Era sobre estar acorrentado a uma realidade que não se quer viver. O que até tem muito a ver com o que estou a escrever agora. Quem havia de querer esta realidade? Bombas como prendas de Natal, subtilmente para ninguém ver, para ninguém se indignar. Sim indignar-se! Que mais pode um acorrentado fazer, senão indignar-se.

No meu texto de ontem falava de uma fuga para um mundo, onde ninguém me consegue acorrentar, onde eu sou livre de gritar o que quero. Soava bem melhor ontem. Uma fuga para puder ser quem eu sou. Ia fazer o que eu sei fazer bem e não o que me obrigam a fazer. Se calhar também ia mudar o mundo, mas adormeci antes dessa parte. Lembrei-me porque tinha essas correntes, tinha de sobreviver, tinha de comer e de pagar uma casa. Não fosse alguém pensar que desacorrentar-me era uma opção.

A fuga era real, lembro-me agora. A fuga era esta. Este écran vazio. O meu blog. O meu mundo virtual. Isso não me tiram, aqui não me podem acorrentar. Aqui vejo quem eu sou e o que sou capaz de fazer. Vi o valor que as correntes não me deixam ver. Vi-me a mim, já me tinha esquecido quem eu era. Ontem sorri e sentia-me bem. Sim, aqui não me podem acorrentar e sim aqui posso mudar o mundo. Pena é que essas palavras se tenham perdido para sempre... Escrevo outras, escrevo sempre...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

A condição humana numa sala de cinema


Fui ao cinema ver o “Ensaio sobre a cegueira”. Como o cinema está localizado num mega centro-comercial apinhado com uma turba consumista, até ia altamente predisposta a maldizer a condição humana. Apesar de tudo, senti um murro no estômago. A humanidade será assim tão mesquinha, tão pronta a descer tão baixo, mesmo perante as contrariedades e estando em causa a sobrevivência?

Sentia-me tentada a defender a espécie, até olhar em volta. Bastou olhar para aquela sala de cinema. Sem catástrofes, nem em situações limite, os seres humanos à minha volta conseguiram fazer da sala uma pocilga, obrigaram-me a perder 20 minutos do meu tempo a ver publicidade que eu não pedi, nem paguei para ver e ainda ouvi o mesmo telemóvel tocar por várias vezes durante o filme. Dignidade, ética, moral? Nem no dia-a-dia, muito menos em situações limite...

terça-feira, julho 29, 2008

À espera...


Dream 029 Tytruck

Foto de Mark Tucker


A propósito de espera, um jornalista perguntou a Nelson Mandela, porque fazia questão de ser sempre pontual. Ele deu esta resposta de um humanismo espantoso:

«O tempo de vida é uma dávida grandiosa, ninguém tem o direito de tirar esse tempo de vida precioso a alguém.»

Lembrem-se disto quando fizerem alguém esperar evitadamente...

domingo, maio 20, 2007

“Especiismos”

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Não tenho por hábito escrever posts de reacção a textos de outros blogs, até me deparar com um post, que me suscita tantas dúvidas e divergências. Já há algum tempo que visito o Esquerda Republicana, com bastante gosto e deve ser a primeira vez que discordo profundamente de um texto deste blog. O texto em causa tem como título “Grandes touradas” e deve ser lido na íntegra aqui.

Pelo que percebi quem se manifesta contra as touradas é anti-humanista e sofre de alguma desorientação ética, porque considera que os animais podem ser sujeitos de direito. E mais, quem é anti-tourada é um puritano que investe contra a liberdade fundamental do ser humano de se divertir, só porque o espectáculo lhe desagrada pessoalmente.

Em primeiro lugar, acusar de puritanismo quem se insurge contra espectáculos que se baseiam, em infligir sofrimento aos animais, por diversão é tão ridículo, como dizer que pornografia e boxe é o mesmo que uma luta de cães ou uma tourada. Qualquer espectáculo proveniente do mútuo consentimento dos seres humanos envolvidos, nunca é comparável, com o que envolve uma outra espécie, incapaz de manifestar uma vontade e de reagir contra o sofrimento.

Em segundo lugar, o que tem de anti-humanista a defesa dos direitos dos animais? O meu conceito de humanismo implica uma responsabilidade ética para com os outros seres vivos, que coexistem com o homem neste planeta. Os animais não são capazes de processos mentais superiores, logo não podem ser sujeitos de Direito? Não interessa que sintam e que sofram, não merecem ser protegidos do sofrimento que lhes é inflingido por pura diversão, pelo ditos seres capazes de processos mentais superiores?

O que está na base desta linha de argumentação é o especiismo, ou seja, o homem considera-se superior a qualquer outro animal, baseando-se nos processos mentais superiores. Logo os seus direitos e liberdades fundamentais estão acima de qualquer outro não humano. É preciso ter a espécie humana em grande conta, no mínimo. Qualquer argumento que alegue superioridade mental, moral ou rácica é sempre dúbio, na minha opinião.

Não reconheço superioridade à espécie, que mais danos tem causado ao planeta, para já não falar nos danos que causa no ceio da sua própria espécie. Um pinguim, um elefante ou um gato doméstico sem processos mentais superiores, não lançaram bombas atómicas, não são responsáveis pelo aquecimento global, nem pela guerra no Iraque. Não posso ser especiista, porque as consequências das acções humanas são tão evidentes que desmentem qualquer primazia relativamente a qualquer outra espécie.

O que seria de esperar da espécie humana, era que usasse os seus processos mentais superiores, com sentido ético e responsabilidade, em prol das outras espécies que não têm essa capacidade. Nesse sentido, seria de esperar que o homem percebesse que é moral e eticamente condenável infligir sofrimento a uma outra espécie por diversão.

sexta-feira, novembro 10, 2006

As subtilezas da verdade

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A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Excerto de "O corpo" de Carlos Drummond de Andrade.