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terça-feira, novembro 11, 2008

A procura

As palavras nítidas só me pertencem
depois da partida.


Oferecem a sua pulsação
como o mar diante da terra.




Na sua ausência,
as pessoais certezas,
os afectos que me salvariam
acrescentam-se
aos objectos que esqueci,

Preciso da sua claridade imprevisível.
Preciso de alguém
que me devolva
cada poema que escrevi.


Joel Henriques

In "A claridade" - Editora Casa do Sul.


Espero que o sucesso da poesia do Joel seja proporcional ao seu talento!


quarta-feira, setembro 24, 2008

Um Homem na multidão: para V.A.

«(...) A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.

Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas.

Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos. O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.

(...) Agora eu penso no que poderia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. (...)»

‘O Homem’, em ‘Contos Exemplares’ de Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, maio 12, 2007

Sozinha, até ao fim dos tempos

.
Há muitos, muitos anos...

num país muito longe e triste,

havia uma enorme montanha

de pedras escuras e ásperas.

Ao cair da tarde,

no topo dessa montanha,

florescia todas as noites uma rosa

que tornava imortal quem lhe tocasse.


Mas ninguém ousava

chegar perto dela

porque os seus espinhos

estavam envenenados


Os homens conversavam entre si

sobre o medo da morte,

e da dor, mas nunca

sobre a promessa

da imortalidade.

E todas as tardes,

a rosa desabrochava

sem poder oferecer os seus

dons, a ninguém...

Esquecida e perdida no topo

daquela montanha de pedra fria,

Para sempre sozinha,

até ao fim dos tempos.

In: "El Laberinto del Fauno"

sábado, dezembro 16, 2006

Pessoas complexas...

.
Stacy: Hey!

House: Hi.

Stacy [stands up]: I'm going to talk to Mark tonight. And I'm going to stay here with you. [smiles and looks nervous]

House: DOn't do it.

Stacy: This isn't funny Greg.

House: I know.

Stacy [smile fades]: You... spent all these months chasing me. Now I'm here and you start running? What the hell changed?

House: Nothing. Nothing changes. I'm not going to change.

Stacy: Who asked you to?

House: Mark is willing to do whatever it takes. I'm not. Never was.

Stacy: Oh, now you're introspective? WEren't so analytical the other night.

House: You were happy with Mark. You'll be happy again.

Stacy: Shut up about Mark. What the hell's wrong with you?

House: I can't make you happy!

Stacy: What?

House: How do you think this is gonna end? We'll be happy for what? A few weeks, few months. And then I'll say something insensitive, or I'll start ignoring you. And at first it'll be okay. It's just House being House. And then at some point, you will need something more. You'll need someone who can give you something I can't. [Stacy sighs.] You know I"m right. I've been there before.

Stacy: Oh. Oh. It doesn't have to be.

House: It does. It does. [they sigh] I dont' want to go there again. I'm sorry, Stacy. [He leaves, and she exhales forcefully]



[cut to roof, Wilson finds House there, sitting on the wall]

Wilson: What did you tell her?

House: I told her she's better off without me.

Wilson: Huh. That's probably true.

[House takes out Vicodin and pops a couple]

Wilson: You're an idiot. You don't think she'd be better off without you.

House: Right. I sent her off on a whim.

Wilson: You have no idea why you sent her off. [House climbs down off the wall]

House: Don't do this.

Wilson: This was no great sacrifice! You sent her away because you've got to be miserable.

House [turning on him]: That kind of psycho-crap help get your patients through the long nights? Or is it just for you? Tough love make you feel good? Helping people feel their pain?

Wilson: You don't like yourself. But you do admire yourself. It's all you've got, so you cling to it. You're so afraid if you change, you'll lose what makes you special. Being miserable doesn't make you better than anybody else, House. It just makes you miserable. [he leaves]

END

"House MD", season two, episódio 211.

sexta-feira, novembro 10, 2006

As subtilezas da verdade

.
A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Excerto de "O corpo" de Carlos Drummond de Andrade.