sábado, setembro 12, 2009

Não há verdade

Génesis

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.


Por mais justiça ... - Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena

quarta-feira, setembro 09, 2009

Sócrates versus Louçã ou Neoliberalismo versus Economia social

Confesso que estava curiosa em relação a este debate, porque iria ser uma oportunidade de ver desmontada a politica do governo Sócrates, que mergulhou o país numa crise económica agravada por uma total desprotecção social do cidadão. Mas não foi isso que aconteceu, porque numa estratégia bastante eficaz, Sócrates virou o jogo para o programa do bloco, evitando que o debate incidisse sobre os colossais erros da sua governação. Louçã viu-se obrigado a defender o seu programa político, chegando a repetir-se e cometeu o erro de não confrontar as suas propostas com as medidas tomadas por este governo. Não conseguiu passar das referências à Galp, Américo Amorim e ao caso dos contentores de Alcântara. Sem com isto querer dizer que o apelo à transparência e o combate à corrupção não sejam importantes, mas era preciso ter passado para outros pontos fulcrais como a sustentabilidade de um Estado social capaz de financiar a oferta de créditos com baixas taxas de juro às PME, serviços de educação e saúde gratuitos.

Convinha ter destacado o imposto sobre as grandes fortunas, o registo de entradas de capitais em offshores e porque não falar na taxa Tobin (taxar as transacções bolsistas com 1%) e no aumento do IRC pago pela Banca. Quando Sócrates agitou o papão das nacionalizações, era preciso ter explicado como o controlo de sectores estratégicos financia o estado social e garante que todos tenham acesso a bens fundamentais. Foi isso que falhou quando Sócrates confronta Louça com a proposta do BE do fim dos benefícios fiscais para despesas com saúde e educação. Ainda que Louçã, tenha explicado que a gratuitidade desses bens torna os benefícios fiscais desnecessários, haverá sempre quem tenha ficado com dúvidas, até porque o conceito de gratuidade é demasiado estranho aos portugueses.

Ainda assim será tão difícil a escolha entre o neoliberalismo de Sócrates e a economia social de Louçã? Será que as pessoas precisam que lhes expliquem as vantagens da política económica da esquerda moderna ou não sentem já as suas consequências na pele? Não percebem já que as vantagens deste sistema são só para alguns, enquanto vêem o acesso à saúde e ao apoio social cada vez mais limitado? E perante esta percepção de que algo está fundamentalmente errado, as propostas económicas do BE parecem assim tão aterradoras? Não me parece...

sexta-feira, setembro 04, 2009

Não é óbvio?

Com as legislativas à porta, e numa altura em que surgem os primeiros debates entre candidatos, vale a pena pensar um bocadinho nas medidas que era importante ver implementadas. O que precisa urgentemente de mudar, parece-me mais importante do que discutir jogos de influencias sobre o jornal da TVI. É tal a promiscuidade entre o poder político e o poder económico, que qualquer deles já faz da comunicação social uma marioneta. Se o poder não estivesse concentrado nas mãos destes dois grupos e se a sua acção fosse regulamentada, hoje não se falaria tanto do Jornal de Sexta.

O que é que precisa efectivamente de mudar? O poder político beneficia os grandes grupos económicos que por sua vez se vêem obrigados a retribuir o favor e vice versa. Esse ciclo vicioso tem que terminar, sob pena de esmagar todos os direitos dos restantes cidadãos, que vão desde o direito a ter um emprego até à liberdade de informação.

Existindo coragem política é possivel acabar com esse privilégio absurdo, bastam algumas medidazinhas verdadeiramente de esquerda como: taxar as grandes fortunas, aumentar os impostos à banca, nacionalizar o sector energético, controlar a saída de capitais para offshores (só para dar alguns exemplos). Estas medidas não só evitariam a capacidade de lobby de alguns grupos económicos, como trariam maior justiça social. O Estado teria mais dinheiro para pagar a convergência das pensões ao salário mínimo nacional, combater a pobreza, proporcionar mais e melhor saúde e educação. Não se colocaria em causa o financiamento da segurança social.

Não é óbvio?

domingo, agosto 30, 2009

Da nossa imundície passada e presente


Nunca é tarde para aprender a lavar as mãos


«A tão negligenciada literatura de casa de banho acaba de obter o significativo patrocínio do Estado. O recente panfleto que a Direcção-Geral de Saúde espalhou por todas as casas de banho públicas do País é, antes de tudo, inquietante - como toda a boa literatura deve ser. Intitulado "Como lavar as mãos?", o texto começa por ser magistral no modo como manipula a arrogância do leitor para, em primeiro lugar, provocar o riso. Um riso que depressa se torna amargo: em poucos segundos, o mesmo leitor que intimamente escarneceu da intenção de quem se propunha ensinar-lhe insignificâncias é tomado pelo assombro de verificar que nunca, em toda a vida, teve as mãos verdadeiramente lavadas. O panfleto apresenta um plano de lavagem das mãos em 12 (doze) passos, incluindo manobras de esterilização com as quais o cidadão médio jamais terá sonhado. Não haja dúvidas: estamos perante um compêndio da higiene manual e digital, uma bíblia da desinfecção do carpo e metacarpo. Este detalhado e rigoroso guia não deixa nem uma falangeta por purificar. Mas - e isto é que é terrível -, ao mesmo tempo que o faz, esfrega-nos na cara a nossa imundície passada e presente.

(...) No passo número dois ("Esfregue as palmas das mãos, uma na outra", recomendação acompanhada de um desenho em que duas mãos se esfregam em movimentos circulares contrários ao movimento dos ponteiros do relógio), quem sempre esfregou no sentido inverso, como é o meu caso, sente que desperdiçou uma vida inteira de higiene pessoal. Os passos seguintes fazem o mesmo, embora em menor grau: em terceiro lugar há que "esfregar a palma da mão direita no dorso da esquerda, com os dedos entrelaçados, e vice-versa"; o quarto passo apela a que se esfregue "palma com palma com os dedos entrelaçados"; e o quinto passo aconselha uma fricção da "parte de trás dos dedos nas palmas opostas com os dedos entrelaçados". Bem ou mal, com os dedos mais ou menos entrelaçados, estes passos descrevem esfregas que estão ao alcance da imaginação de qualquer pessoa. A partir daqui, o caso piora de novo. O passo seis determina que se "esfregue o polegar esquerdo em sentido rotativo, entrelaçado na palma direita e vice-versa", em movimentos semelhantes aos que se fazem quando se acelera numa motorizada, e o passo sete recomenda que se "esfregue rotativamente para trás e para a frente os dedos da mão direita na palma da mão esquerda e vice-versa". O cuidado posto nestes preceitos amesquinha quem até aqui se limitava a esfregar as mãos uma na outra, descurando, por exemplo, o papel que os dedos devem desempenhar, e logo rotativamente, na higiene.

Enxaguar as mãos é o passo oito. Secar as mãos com toalhete descartável, o passo nove. Mas o passo dez volta a revelar que o processo é complexo: "Utilize o toalhete para fechar a torneira, se esta for de comando manual." A torneira deve, por isso, continuar a correr durante todo o passo nove, provavelmente para prevenir eventuais emergências de enxaguamento, sendo fechada apenas no passo dez. O décimo primeiro passo é o mais interessante: "Agora as suas mãos estão limpas e seguras." A contemplação da limpeza e segurança das mãos constitui, portanto, um passo autónomo neste processo de lavagem manual. No fim da lavagem, falta apenas, com as mãos impecavelmente limpas (e seguras), sair da casa de banho abrindo a porta em que toda a gente mexeu. E, creio, voltar atrás para repetir o processo.»

Ricardo Araújo Pereira

quinta-feira, agosto 27, 2009

"Reform Madness"

Nos EUA decorre uma escandalosa campanha contra o plano nacional de saúde de Obama. O sistema público de saúde está a ser apelidado de comunista, comparado à antiga URSS, diabolizado de uma forma ridícula. Por trás desta violenta campanha de manipulação dos cidadãos americanos, estão os lobbies das seguradoras de saúde privadas que sentem os seus lucros milionários ameaçados. De facto estas empresas obtêm lucros espantosos, porque cobram preços elevadíssimos que depois não correspondem aos serviços efectivamente prestados. São recusados vários tipos de tratamentos graças a cláusulas contratuais abusivas. Basta ver o filme “Sicko” de Michael Moore para perceber o grau de desumanidade e de fraude que impera neste sector.

O que existe nos EUA é o sistema de saúde mais caro do mundo, colocado no ranking de qualidade em 37º lugar, deixando à margem, sem acesso a qualquer tipo de cuidados de saúde 40 milhões de americanos! Só esta informação deveria colocar o povo americano ao lado de qualquer tentativa para mudar o sistema (e o plano de Obama nem sequer é um sistema inteiramente público, é um sistema misto) ,mas não é isso que está a acontecer. As informações que estão a passar da parte dos Republicanos, lobbies das seguradoras e dos próprios média, são mentiras inacreditáveis como: «o novo plano de saúde promove a eutanásia», «haverá racionamento de tratamentos e medicação» e «o estado vai tomar conta de todo o sistema de saúde incluindo o privado».

Chegou-se ao ponto do editorial do jornal "Investor's business Daily" publicar afirmações perfeitamente disparatadas, como dizer que o físico Stephen Hawking nunca teria hipotese de tratamento no Reino Unido, porque o Sistema Nacional de Saúde Britânico consideraria a sua vida inútil! Nem sei como há alguém vivo na União Europeia, a julgar por estes comentários...

É isto que acontece quando o lucro vem antes das pessoas! Não se olham a meios para manipular a opinião pública! Um bom exemplo disso neste excerto do Daily Show de Jon Stewart, para ver aqui.

quarta-feira, agosto 26, 2009

De volta...



Praia das Furnas e Samoqueira (Porto Côvo)

quarta-feira, agosto 19, 2009

Time out


Deixem-me aproveitar, antes que cresça aqui um empreendimento turísitico... Até Breve!


quinta-feira, agosto 13, 2009

Politiquices

O aproximar de eleições e a organização de listas partidárias acaba por trazer ao de cima todo o tipo de jogadas políticas, que tão má imagem dão da nossa democracia e particularmente da organização dos partidos. Os amigos entram nas listas, mesmo que estejam envolvidos em processos judiciais com fortes evidências de corrupção. Os inimigos, que é como quem diz quem nos criticou e se opôs ao querido líder, são gentilmente afastados. Os que se indignaram porque não podem estar nas autárquicas e nas legislativas, são devidamente recompensados para não levantarem mais ondas. Veja-se como Sónia Sanfona puxa dos seus contactos no poder central para prometer médicos aos munícipes de Alpiarça, já que não pode voltar a ser deputada na assembleia da república... Haja alguma compensação claro está...

O que fica sempre bem é tentar piscar o olho a outros quadrantes políticos, colocando nas listas simpatizantes ou ex-militantes de outros partidos. Manuela Ferreira Leite para piscar o olho à sua direita foi buscar Maria José Nogueira Pinto, que agora ter que proferir parvoíces do género «Nas europeias, voto Rangel, nas legislativas, voto Ferreira Leite e na Câmara de Lisboa, voto António Costa». Suponho que coerência não seja um requisito politicamente relevante.

Melhor fez o PS, para aliciar simpatizantes do Bloco de Esquerda. Pela cultura e pelos direitos das comunidade LGBT, foram recrutados para as suas listas, Inês de Medeiros e Miguel Vale de Almeida. Parece fácil, não é? Nem é preciso ter quatro anos de governação completamente alheios a estas duas questões. Suponho que tudo isto mais não seja que um valente atestado de burrice aos eleitores. Depois surpreendam-se que a abstenção esteja aos níveis conhecidos, que os partidos à esquerda do PS reúnam quase 20% dos votos e que a maioria dos portugueses tenha uma opinião extremamente negativa da classe política. Pudera!

domingo, agosto 09, 2009

Ainda há alguém a construir?

Que eu não fui há um momento,
sabes já? E tu dizes não saber.
Então sinto que se não andar a correr,
posso nunca ter passado totalmente.

Sim, mais do que sonho de um sonho sou.
Só o que a limites consolidados aspirou,
é como um dia e como um som que esvoaça;
pelas tuas mãos inominado passa,
para a múltipla liberdade encontrar,
e elas com tristeza o vêm a abandonar.



E o escuro apenas para ti ficou,
e, crescendo para a luz vazia,
uma história do mundo se erguia
de uma pedra que cada vez mais cegou.
Ainda há alguém a construir?
As massas de novo às massas dão voltas,
as pedras estão como soltas

E nenhuma foi por ti talhada...


Rainer Maria Rilke

In O Livro de Horas, p. 161

quarta-feira, agosto 05, 2009

Dentistas a mais?? Onde?




Sinceramente faz-me confusão, como é que num país onde milhares de pessoas, estão excluídas de cuidados de saúde dentária, o bastonário da Ordem dos Dentistas exije a redução de vagas nos cursos para estes profissionais. Existem dentistas a trabalhar fora do país, porque o sistema nacional de saúde não contempla esta especialidade, o que não significa que existam profissionais a mais. Esta grave lacuna no sistema nacional de saúde constitui um grave problema de injustiça social. Quem pode pagar tem acesso a cuidados de saúde dentária, quem não essa possibilidade financeira, não tem acesso aos serviços do dentista. Essa seria a realidade a combater, aí é que reside a questão fulcral e não no nº de vagas disponíveis.

O que também me deixa confusa, é a razão pela qual o desemprego dos dentistas não suscita um apelo firme do Bastonário à integração destes profissionais no Sistema Nacional de Saúde, pressionando o poder político para a resolução do problema do desemprego e das pessoas que não podem pagar cuidados de saúde dentária no privado. Não queria pensar que a razão, está na concorrência que o publico faria ao privado, que certamente obrigaria os dentistas a baixar as suas exorbitantes tabelas de preços…

Em tempo de pré-campanha para as legislativas, era bom verificar o que dizem os partidos do Sistema Nacional de Saúde. Quem se atreve a dizer que a universalidade dos cuidados de saúde, independentemente da sua condição socio-económica, não é um imperativo ético e moral?

terça-feira, agosto 04, 2009

Generosidade para quem?


Em primeiro lugar, tenho de pedir desculpa pela minha velocidade de reacção aos acontecimentos… é do calor, do cansaço acumulado, enfim... Vou falar de um anúncio que já tem uma semana, mas ainda assim merece um post. O PS num ataque frenético de generosidade ou quiçá numa tentativa propagandística de nova esquerda, resolve anunciar a atribuição de uma conta de 200 euros por recém-nascido, a movimentar quando este tiver 18 anos. A primeira coisa que salta à vista é o ridículo do valor, quando comparado com o praticado noutros países. A Alemanha atribui pelo nascimento de um filho até 25 mil euros, pagos pelo Estado durante doze meses. Espanha oferece 2500 euros aos recém-nascidos, o Luxemburgo, 2291 euros, na Bélgica o Governo criou um subsídio de nascimento de 1064 euros e em França existe um prémio de 855 euros pelo nascimento de cada filho.

O que também salta à vista, é que na altura em que a criança mais precisa de apoio, não tem acesso a essa verba. Não seria mais proveitoso aumentar o abono de família ou conceder mais direitos aos pais que trabalham, como reduções de horário (convém lembrar que o código de trabalho rosa, veio retirar direitos e não atribuir…). Aos 18 anos, “o bebé” já poderá até ter o seu próprio emprego e já os pais passaram pela fase dos maiores encargos. A nível social ou familiar nada disto faz sentido.

E por último, vamos pensar em quem ganha verdadeiramente com esta medida. Ora quem fica com 200 euros a multiplicar pelo número de nascimentos em Portugal, isto é, mais ou menos 20 milhões de euros? A banca. E já nem falo da eventual cobrança de comissões de conta, basta pensar que a verba só pode ser mobilizada pelos destinatários 18 anos depois, são largos milhões nos cofres dos bancos até ao primeiro levantamento.

Tudo isto, mais não é, do que dar uma ideia de aparente preocupação social de partido de esquerda, quando de facto se beneficia a mesma Banca, cujos privilégios permaneceram intocáveis ao longo da governação socialista. O português com a sua tendência ao conformismo e a pensar pouco no assunto, dirá até «É melhor que nada!», esquecendo-se do que já perdeu e de quem efectivamente ganha…

quinta-feira, julho 30, 2009

Stupid me...



Placebo
"Battle for the sun"
2009

sábado, julho 25, 2009

There is no economy left to recover...


Esta frase é de um excelente artigo de Paul Craig Roberts, que fala de uma transformação económica que levou à grave crise que hoje nos afecta. Passamos de uma economia assente na produção, para uma económica assente na desregulação do mercado, baixas taxas de juro e produtos financeiros fraudulentos. A esta nova economia, ele chama «make believe economy».

Outro aspecto do sistema, o consumismo extremo, leva a uma situação de dívida constante. Os cidadãos são impelidos a comprar mais e mais bens, contraindo créditos atrás de créditos, comprometendo o seu rendimento ao ponto de deixarem de conseguir pagar as suas dívidas. Era esse rendimento que sustentava a nova economia, mas a partir do momento em que as dividas deixam de ser pagas e novos empréstimos deixam de poder ser contraídos., a base da economia colapsa. As pessoas perdem os empregos e as próprias casas. Milhões de americanos estão sem casa e a viver com familiares ou em “cidades tenda”.

Entretanto o governo americano continua a endividar-se, numa escala deficitária galopante, ao ponto de ter comprometer o próprio dólar. A China, principal credor dos EUA já começou a comprar ouro e matérias-primas, para substituir o dólar. A desvalorização do dólar será inevitável e com ele a desvalorização dos salários e dos rendimentos.

A resposta dos governos Bush e Obama não resolveu estas questões fundamentais, as ajudas vão para a Goldman Sachs e para a indústria de armamento. A crise está longe do final:

terça-feira, julho 21, 2009

Até na prevenção da GripeA uns têm mais deveres que outros

Não há nada melhor que a Gripe A para fazer esquecer a proximidade das eleições legislativas e a falta de propostas viáveis para o futuro do país dos candidatos a Primeiro-Ministro. Chega-se ao cúmulo de um deles ainda nem ter apresentado qualquer projecto para o país. Mas o importante é que as pessoas alucinem com a Gripe A. Não utilizem os apoios no metro e no autocarro, mais vale partir uma perna que apanhar um punhado de germes e vírus da Gripe A!! Caixas Multibanco, só com um toalhete desinfectante! Mas o melhor para perceber a dimensão da paranóia, é ler um artigo que vinha hoje no Diário Económico com o título «Acabou-se o beijinho e o “passou-bem”».

Repare-se como até a questão da Gripe A revela bem a mentalidade instalada. O cidadão é que tem que se prevenir. O cidadão que parta uma perna, o cidadão que compre desinfectante na farmácia. Não se exige às empresas ou aos comerciantes que aumentem as precauções com a limpeza e desinfecção das instalações que o publico utiliza. Quem entrar numa casa de banho pública, nem que seja para lavar as mãos terá sorte se encontrar sabonete. Já nem falo na limpeza dos próprios transportes públicos. Alguém já reparou nas equipas de limpeza que entram nos aviões antes do embarque e que 10 minuto depois, já cá estão fora? E o que dizer dos nossos locais de trabalho mantidos por equipas de limpeza, que muitas vezes arrastam uma esfregona molhada e nem detergente usam? (E um aparte, pelo que pagam a estas pessoas não as censuro, critico sim quem permite que isto se passe...).

Até no que pode funcionar como uma distracção do que é verdadeiramente importante, conseguimos perceber o grau fundamental de desigualdade de direitos e de tratamento a que se chegou. Ao cidadão comum tudo se exige ao ponto do ridículo, a quem de facto tem poder e responsabilidade, nada é exigido em matéria de prevenção da “pandemia”. Veja-se que as empresas recusam até pagar salários em caso de quarentena. Na GripeA como em tudo o resto, os sacrifícios e os cuidados são exigidos só a alguns.

quinta-feira, julho 16, 2009

Mais sangue na Rússia de Putin





Estemirova, de 50 anos, trabalhou com a jornalista Anna Politkovskaya que foi assassinada há três anos em Moscovo. Em 2007, recebeu o Prémio Politkovskaya e foi distinguida pelos parlamentos europeu e sueco. »

Tal como Anna Politkovskaya, Natalia pagou com a vida a ousadia de denunciar os crimes desumanos da Rússia de Putin e com a mesma impunidade os assassinos não serão acusados. Serão encontrados bodes expiatórios, mas nunca os responsáveis morais e políticos destes crimes. No entanto o mundo sabe. Não sabem os líderes políticos com os seus interesses estrategicos e económicos, ignoram os crimes de Putin e o homícidio e perseguição brutal de uigures na China, mas nós não temos de o fazer...

"Ela dizia abertamente a verdade, às vezes falava das autoridades com dureza. Mas é por isso que apreciamos os defensores dos Direitos do Homem", acrescentou Medvedev, segundo quem este é "um acontecimento triste e uma provocação".

Sim, apreciamos os defensores dos Direitos do Homem! Lá me obrigam a falar de hipocrisia novamente... pelo menos na parte da provocação, ele acertou... Pena é que quem tem poder para reagir a provocações, não reaja...



domingo, julho 12, 2009

Hipocrisias...

Acho que este post vai ser uma espécie de rescaldo da semana. A nível nacional, e uma vez que já falei do Ronaldo, falta destacar o triste final da comissão de inquérito ao BPN. Quando toda a gente ouviu evidencias mais que suficientes do desleixo da supervisão do Banco de Portugal, o PS protege um dos seus e mais uma vez as responsabilidades ficam por atribuir. Pelo menos os trabalhos da Comissão tiveram alguma cobertura televisiva, que permitiu às pessoas perceberem alguns dos esquemas fraudulentos que a alta finança utiliza, com a complacência da Supervisão. Esperar que o sentido de justiça e o peso dos factos superassem os interesses partidários, era de facto pedir de mais… Assim não será surpreendente o descrédito da imagem dos partidos juntos dos eleitores.


A nível internacional, não posso deixar de falar na escolha da cidade de L’Aquilla para receber a cimeira do G8. As cimeiras do G8 já são escandalosas sessões de prepotência e manutenção de “status quo”, mas é preciso serem também insultuosas para populações que perderam tudo e vivem ainda em tendas? Não é indecente? Qual é o objectivo é para que não existam manifestações, dado à dificuldade de acessos e inexistência de infra-estruturas, pouco importando como isso prejudica quem lá tem de viver? Ou é alguma exibição de um Berlusconi que acha que está a lidar com a situação de L’Aquilla de uma forma brilhante? Ou será um pretexto para os líderes do G8 demonstrarem caridade com os pobres e desfavorecidos? Devia existir algum limite para a hipocrisia…

sábado, julho 11, 2009

No one cares...



Album: "Battle for the sun"

segunda-feira, julho 06, 2009

Já paravam de falar no Cristiano Ronaldo!

O tempo que as nossas televisões têm dedicado à novela Cristiano Ronaldo já roça o insulto. O telejornal da televisão pública tem sido nos últimos dias a versão televisionada da revista Caras, ao dar um longo destaque ao suposto caso do futebolista com a Paris Hilton. “Who cares”, pergunto eu? Aparentemente toda a gente... Ele é notícia de abertura e ocupa 10 a 20 minutos de telejornal? Directos do Santiago Barnabéu durante toda a semana que antecede a apresentação do jogador? Caramba, só lá estão turistas a tirar fotos... suponho que como é o dinheiro dos contribuintes a pagar o tempo de satélite, não faz mal...

Tudo se justifica com a euforia à volta do jogador, como se a vida do Cristiano Ronaldo tirasse o sono a alguém. As pessoas estão muito mais preocupadas em manter o seu emprego e em pagar as suas contas e preferiam saber dos problemas reais que as afectam. Mas alguém entende que querem saber do Cristiano Ronaldo. Alguém decidiu que há euforia. Pretende-se fazer crer que se trata de um sucesso nacional, tentando empolar algum nacionalismo básico, para que as pessoas esqueçam que este país de bem sucedido tem muito pouco.

Já que a população em geral, poucas possibilidades tem de obter qualquer sucesso profissional, é importante mostrar que Ronaldo consegue. Se ele consegue, o povo também. Olhem para o Cristiano Ronaldo, todos os directos, todas as reportagens, horas de informação pertinente... porque há um salário milionário e uma Paris Hilton a cada esquina! A realidade fica para depois...

Fonte da imagem: www.toonpool.com/cartoons/

Adenda: Enquanto publico este post, a SicNoticas mostra uma entevista do Nuno Luz à TVE (sim a TVE quis entrevistar o Nuno Luz, por incrivel que pareça), em que ele explica que a historia de Ronaldo é como a da Cinderela e que ele é uma pessoa muito simples... É desta que eu não consigo conter o vómito...

sexta-feira, julho 03, 2009

O Estado da Nação “according to me”

Discutiu-se ontem na Assembleia da República o Estado da Nação, em que o optimismo do governo que parece não partilhar o mesmo espaço/tempo que nós meros mortais. É que nós meros mortais percebemos que algo está profundamente errado e estamos fartos que sucessivos governos se demitam da responsabilidade dessa situação.

É perceptível para todos a desigualdade social gritante, há de facto quem não tenha sofrido com a crise e continue a lucrar, há sectores que não sofrem avaliações e penalizações e por outro lado, há quem não tenha acesso ao subsídio de desemprego. Persiste o velho problema, uns pagam impostos, outros não, uns têm direitos, outros não. A igualdade de oportunidades é um mito. A educação e a saúde têm um preço cada vez mais elevado. O acesso à reforma foi dificultado e há de facto uma forte penalização.

E o que dizer do acesso à justiça? Já de si caro e moroso, já de si só acessível a alguns, foi ainda dificultado pelo aumento das custas judiciais. Nem será de falar das empresas que encerraram sem que nada fosse feito. Preferem-se planos de investimento megalómanos que vão afectar o nosso endividamento, a investimentos ponderados na recuperação de escolas e hospitais, que podiam estimular a economia a nível local. Até a nível ambiental se conseguiu desresponsabilizar as industrias que façam descargas poluentes...


E devo-me estar a esquecer de outras tantas evidências, mas a nota fundamental é que há sempre quem ganhe e não somos nós meros mortais. E convém acrescentar que o que se discutiu não foi o Estado da Nação, nem as questões que eu levantei. Discute-se um imbecil que não se sabe comportar e que já tinha demonstrado isso há muito tempo, porque agora fez um gesto ofensivo e isso é que é a noticia... Os gestos ofensivos deste governo ao longo da legislatura, não incomodaram ninguém...


quarta-feira, julho 01, 2009

Viesses tu...

(...)
O tempo em que viesses sim seria
um tempo vertebrado um tempo inteiro
e não meras palavras arrancadas ao tinteiro
e alinhadas em fugaz caligrafia
Viesses tu que a tua vinda afastaria
todos os meus cuidados transeuntes
e para sempre alegre viveria
os meus dias infantes já distantes
A solução da solidão compartilhada
onde vejo o meu mais profundo mundo
seria a solução ampla e sem fundo

oposta sem resposta ao meu país do nada



Com a voracidade do olvido
seria só tu vires e lutares
e por mim de olhos enormes e crepusculares
serias ente querido recebido
Volta com as primeiros anjos de dezembro
num vasto laranjal eu quero amar-te
e então a tua vida há-de ser a minha arte
e o teu vulto a única coisa que relembro
O passado é mentira digo eu
sensível ao esplendor do meio-dia
e sob a árvore plena de alegria
o mínimo cuidado esmoreceu
Ao grande peso de tanto passado
com a insónia da dúvida na testa
basta a tua presença que protesta
e todo eu me sinto renovado


Ruy Belo
"Poema para a Catarina"
in Despeço-me da Terra da Alegria


domingo, junho 28, 2009

Há oportunidades fantásticas, não há?

O programa “Novas Oportunidades” permite a pessoas que não tenham o 12º ano, mediante três meses de aulas e um trabalho subordinado ao tema a história da minha vida, ficar com essa habilitação. É quase a mesma coisa que andar 6 anos a aprender Português, Matemática, Ciências da Natureza, Filosofia e Historia. Tudo isto para mostrar na UE que somos um povo com grandes habilitações, enquanto se dá às pessoas a falsa sensação de ter um valor acrescido para o seu currículo e para a sua formação pessoal. Quando de facto, não lhes é dado nada mais que um certificado.

Não tenho nada contra a que as pessoas tenham oportunidade de completar a sua formação, até pelo contrário, acho que é um imperativo num país de analfabetos funcionais com tantas carências educacionais. Mas teria de ser um programa bem estruturado que de facto tivesse algum conteúdo e que proporcionasse a aquisição de competências e saberes que os alunos não possuem.



Mas o que torna o programa “Novas Oportunidades” ainda mais criticável, é que dá a possibilidade de acesso ao ensino superior, permitindo histórias incríveis como a desta notícia. Este senhor vai entrar para Medicina, quando centenas de jovens todos os anos, que se esforçaram durante 6 anos de ensino secundário para obterem uma média de 19 valores, ficam à porta da faculdade de Medicina. E eu pergunto, isto é justo? É isto de um país sério onde o esforço e o trabalho são recompensados? Claro que não. A mensagem é não estudem, não trabalhem, desistam da escola no 9ºano que depois o Estado dá-vos o 12ºano e uma entrada na faculdade de bandeja. Se na prática, não têm as competências que vos permitam completar esse curso superior, é irrelevante. Vão chumbando e pagando propinas e não vão sequer perceber o que vos está a acontecer e como estão a ser usados...

quinta-feira, junho 25, 2009

Sobre o Consenso...

Tive o prazer de ler um artigo muito interessante chamado "Conflito e Consenso" da Sara Monteiro, publicado na edição online do “Le Monde Diplomatique”. E digo tive o prazer, porque o artigo fala de algumas das minhas preocupações e da necessidade de procurarmos um novo modelo sócio-economico, que é muitas das vezes esmagada pela necessidade de obter uma espécie de consenso ideológico alargado.

«Não precisávamos de assistir ao fracasso do neoliberalismo para sabermos duas coisas: a primeira, que esse modelo não nos aproxima, nem em termos socioeconómicos, nem ambientais, desse ideal que atravessa os tempos; a segunda, que a construção de alternativas a esse modelo não pode cair no simplismo ilusório de qualquer outro «pensamento único»

Apesar das falhas evidentes do neoliberalismo, que só provou ser capaz de alimentar uma elite com enorme poder económico, com grandes prejuízos ambientais e para a equidade social, não se têm construído verdadeiras alternativas. E porquê? O neoliberalismo parece ter-se tornado o paradigma único e quem tenta procurar soluções opostas, é rapidamente apelidado de radical ou de comunista. E a autora identifica e muito bem, a origem para esta tendência para o pensamento único e para a criação de consensos:

«Num país marcado, e menorizado, por 48 anos de ditadura, continua a ser demasiado generalizada a tendência para encarar todo o conflito como negativo, para o evitar a qualquer custo.». Não será por acaso que se tem ressuscitado o mito do Bloco Central e da necessidade de estabilidade política e de governos maioritários....

É caso para questionar de que nos tem servido o consenso em torno do actual modelo socioeconómico e «a “estabilidade” que permite manter o desastroso rumo do capitalismo de casino (em vez de impor instrumentos públicos capazes de melhorar a vida das populações)?». A resposta é que o consenso tem servido interesses minoritários e têm de facto agravado as condições de vida do cidadão comum.

No artigo surge um bom exemplo da hipocrisia da ideia de consenso:

«Apoia-se a recondução de José Manuel Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia porque é português e isso favorece o país. Aceitaríamos que um presidente de qualquer outra nacionalidade favorecesse o seu país? É esse o projecto europeu que defendemos? Não importam as políticas concretas, neoliberais e belicistas, que o presidente da Comissão pôs em prática?»

Há mais exemplos interessantes, mas não queria tornar o post demasiado extenso, nomeadamente o enorme consenso em torno do sigilo bancário, quando os crimes de corrupção e o desvio de avultadas somas para offshores, tem prejudicado a sociedade no seu todo.

Na parte final do artigo, surge a que é também a minha grande dúvida, até quando vão ser mantidos todos estes consensos impostos?

«Sabemos que a resistência das pessoas à violência quotidiana introduzida nas suas vidas tem limites. Não sabemos quais são esses limites. Sabemos que por vezes são “pequenas coisas” que se tornam insuportáveis. Ser um trabalhador precário, excluído do subsídio de desemprego, e ouvir repetidamente afirmar, a propósito dos clientes do Banco Privado Português (BPP), que quem tem 300 mil euros de poupanças nem sequer é rico.»

Até quando o cidadão comum vai aguentar este acumular de pequenas coisas, que estão a adquirir um peso insuportável?

terça-feira, junho 23, 2009

Prémio Lemniscata



Fui duplamente agraciada com o Prémio “Lemniscata” pelos blogs, Dissidente X e O Peso e a Leveza. Dado o meu estado de preguiça de mini-férias, nitidamente não merecia um prémio, quanto mais dois… De qualquer forma, agradeço imenso a distinção e vou procurar corresponder às expectativas e tentar justificar os prémios.

O nomeado deve fazer a seguinte referência ao significado da palavra “Lemniscata” (aparentemente nem toda a gente sabe o que é…):

Sobre o significado de LEMNISCATA:

LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.”

Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores

(In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)

Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.

Texto da editora de “Pérola da cultura”


Cabe ainda ao blog premiado, nomear 7 blogs merecedores do selo deste prémio que «demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores». Porque vão muito para além do óbvio, os meus nomeados são:

Dissidente X

O peso e a leveza

InBetween

O Bico de Gás

Notas ao Café

We have kaos in the garden

Activismo de Sofá

Muitos outros blogs mereceriam a minha distinção, mas estes tiveram o mérito de tornar as minhas visitas obrigatórias. E quanto a mim própria, retomo a tarefa árdua de corresponder às expectativas de quem me nomeou e a quem agradeço uma vez mais.

sábado, junho 20, 2009

Praga Inesquecível



Quero mais mini-férias destas...

quarta-feira, junho 17, 2009

Até onde vai Ahmadinejad?

A situação no Irão não parece estar a favorecer Mahmoud Ahmadinejad. É acusado de fraude eleitoral e enfrenta uma forte contestação interna, isto tendo em conta a manipulação da informação que efectivamente nos chega.

Existem fortes indícios de fraude eleitoral, porque Mahmoud Ahmadinejad venceu em regiões onde mesmo em situações adversas não o tinha feito, ou não com uma margem tão grande. Venceu na região natal do candidato da oposição, Mir-Hossein Mousavi, onde este goza de amplo apoio da população. Vale a pena ler aqui a explicação detalhada desses indicios.



O que sabemos com certeza, é que os jornalistas estrangeiros têm sido convidados a sair, os meios de comunicação social, a Internet e até o envio de sms, foram severamente censurados e limitados. A blogosfera, o Youtube, o Facebook e o Twitter têm resistido e são neste momento a forma de divulgar informação pelos iranianos, ainda assim mantendo o anonimato. É impressionante o último twit de um iraniano, que tem relatado os acontecimentos: "Our lives are in real danger now - we are the eyes - they need to stop us."

Milhares de pessoas nas ruas a contestar a eleição de Ahmadinejad, conseguirão mudar o rumo politico do Irão? A oposição será esmagada pela violência ou pelo cansaço? Até onde vai Mahmoud Ahmadinejad?

terça-feira, junho 09, 2009

Time out

A actividade bloguísitica será suspensa até Domingo, por motivos de força maior... como sejam as mini-férias, da semana de Junho com dois feriados ... Até Breve :))

Rescaldo das eleições

Há uns meses atrás ninguém diria que o PS perderia as eleições europeias. Ninguém diria que o PCP e o BE juntos conseguiriam 21% dos votos e que a Manuela Ferreira Leite ganharia fosse o que fosse. Talvez se tenha desvalorizado a percepção que os portugueses têm da responsabilidade directa do partido de governo, no agravamento da crise e das profundas desigualdades sociais em que o país mergulhou. Ninguém parece acreditar que o mal-estar seja só uma coisa da recessão global, excepto o próprio PS, que tem de inventar uma desculpa para a derrota não pesar tanto.

Apesar destas eleições demonstrarem uma tendência de mudança de mentalidade, os eleitores portugueses ainda pensam muito em termos de PS e PSD, e só isso explica a vitória improvável do PSD. Isso e Paulo Rangel, que fez a campanha sem a presença da líder, apostando em passar uma imagem de competência e seriedade acima das “roubalheiras” que apontavam ao PSD. Terá capitalizado votos de protesto com essa estratégia. Se bem que 31,69%, convenhamos, não é mobilização eleitoral para qualquer partido que tenha a mínima noção do que é legitimidade democrática para governar (e isto vale também para os 26,58% do PS).

É de salientar que 21% do eleitorado percebeu que votar no PS, não é votar à esquerda e deslocou-se para o BE e CDU. E se pensarmos como os partidos supostamente de esquerda foram castigados, por essa Europa fora, percebemos o enorme "flop" que foi a ideia da “Esquerda - 3ª via” que foi facilmente percebido pelo eleitorado. Esperar-se-ia que estes partidos tirassem as devidas ilações e repensassem estratégias. Mas é mais fácil, agitar o fantasma da ingovernabilidade, da dispersão dos votos, nos radicalismos medonhos. Mais fácil é engolir sapos e associar-se ao arqui-inimigo, num bloco central, do que encetar uma política de esquerda séria e responsável.

Só nos valores elevados da abstenção, ninguém errou. A abstenção nem mereceu grandes reparos dos dois maiores partidos, mesmo que atinja os 62% ainda acrescida de 4,69% de votos em branco A legitimidade democrática ou a falta dela não se revelou preocupante. Adivinhem o que eu disse eu 2007 e que hoje se repetiu, sem que alguma alteração tenha ocorrido:

sábado, junho 06, 2009

Europeias, o que está em causa?

Amanhã é dia de eleições, e porque não pensar um bocadinho nas questões que estão verdadeiramente em causa. Já que as campanhas não foram propriamente esclarecedoras, a não ser que os eleitores estejam interessados em marketing de feiras, porque não visitar o EU Profiler? Neste site pode fazer-se um teste, que nos ajuda a detectar as questões realmente importantes e a definir a nossa posição sobre elas. Começa por nos questionar sobre o Estado-Providência, a economia, a educação, o emprego, a política externa, privatizações, imigração até à política nacional. Acaba por nos obrigar a reflectir sobre a nossa própria opinião. Um excelente exercício para o dia de reflexão!

A parte gira é que o próprio site analisa os resultados das nossas respostas, desenha o nosso posicionamento político e indica os partidos que mais se aproximam dessas posições. Se clicarmos nos diferentes partidos, conseguimos ver resposta a resposta, semelhanças e diferenças. Além disso, os gráficos são bastante elucidativos e estão muito bem feitos.

Da minha parte, os resultados até estão dentro do que eu esperava. Mas o fundamental foi verificar que as minhas preocupações sociais e os meus ideais, têm uma representação partidária. Eu quero um partido que defenda o referendo à constituição europeia, e que pretenda uma Europa solidária que coloque os direitos do cidadão comum à frente do poder económico. Essa representação existe, por isso não vejo qualquer razão para não ir votar amanhã!


quarta-feira, junho 03, 2009

O que significa afinal abster-se?

No post anterior, critiquei os partidos e a forma como se tornaram instrumentos de ascensão política ou profissional, criando uma estranha promiscuidade entre a política e o enriquecimento pessoal. Sendo assim podemos questionar se devemos legitimar esta estrutura partidária pelo voto. Será que não votar é combater o caciquismo?

O que é que se combate com a abstenção? Se a abstenção exprime apenas uma não intenção, que pode ser confundida com desinteresse ou alheamento. Ninguém vai determinar quais os objectivos de quem não vota. Se verificarmos os elevados números da abstenção nas últimas eleições, analisando a reacção dos partidos, deduzimos que nenhum comportamento foi alterado. Não diminuiu o caciquismo, os compromissos eleitorais continuaram a não ser desrespeitados, nada no sistema eleitoral ou no funcionamento do Estado foi alterado. E chegamos a ter abstenções de 60%!

Lembrei-me que já tinha falado de abstenção, mantenho a mesma opinião:


Não será preferível combater o caciquismo, votando num partido que não movimente promiscuidades e jogos de influência? Existem pequenos partidos que reúnem essas características, aí vota-se num determinado projecto, mesmo que não nos identifiquemos totalmente com ele. Não será melhor que um não voto? No fundo os partidos de poder, são os que têm mantido a promiscuidade que referi no post anterior, logo votar fora dessa esfera deve ser mais eficaz do que um silêncio que não transmite uma intenção concreta.